Estou de volta... como a primavera!

"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa..."

Manuel Antonio Pina

quarta-feira, 31 de outubro de 2012



Fotografia de Camile Moirenc

Todos estão sós no coração da terra,
Atravessados por um raio de sol:
E de repente é noite

Salvatore Quasimodo
(Tradução de Jorge de Sena)


terça-feira, 30 de outubro de 2012

"Quero Ser o Poeta da Noite



Fotografia de Georges Dudognon

Noite, velada noite,
faz-me teu poeta!
Deixa-me entoar as canções
de todos aqueles
que, pelos séculos dos séculos,
se sentaram em silêncio
à tua sombra!
Deixa-me subir ao teu carro sem rodas
que corre silencioso de mundo a mundo,
tu que és rainha do palácio do tempo,
escura e formosa!

Quantos entendimentos ansiosos
penetraram mudos no teu pátio,
vaguearam sem lâmpada pela tua casa,
à tua procura!
Quantos corações, que a mão do Desconhecido
atravessou com a flecha da alegria,
romperam em cânticos
que sacudiam a tua sombra
até aos alicerces!

Faz-me, ó noite,
o poeta destas almas despertas
que contemplam maravilhadas,
à luz das estrelas,
o tesouro que encontraram
de repente;
o poeta do teu insondável silêncio,
ó noite!

Rabindranath Tagore


segunda-feira, 29 de outubro de 2012



Imagem daqui

No espaço entre
nós transitam
estrelas e horas

Frágeis que sempre
parecem
incertas

Um imenso luar inscreve teu
cheiro nas memórias do
meu corpo

E a poesia busca
alcançar a mudez que as
lágrimas carregam no

Espaço onde se
encontram teu sorriso e meus
olhos 

Adair Carvalhais Júnior


domingo, 28 de outubro de 2012


"The Garden of  Love", de Walter Crane

Deixa-me amar-te com ternura, tanto
Que nossas solidões se unam
E cada um falando em sua margem
Possa escutar o próprio canto.

Deixa-me amar-te com loucura, ambos
Cavalgando mares impossíveis
Em frágeis barcos e insuficientes velas
Pois disso se fará a nossa voz.

Deixa-me amar-te sem receio, pois
A solidão é um campo muito vasto
Que não se deve atravessar a sós.

Lya Luft


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Cansei os braços


Desconheço a autoria da imagem


Cansei os braços
a pendurar estrelas no céu.
Destino dos fados lassos.
Tudo termina em cansaços
braços
e estrelas
e eu.

António Gedeão


quarta-feira, 24 de outubro de 2012



Fotografia de Tareq Albohy

Aquele que amo
Disse-me
Que precisa de mim.

Por isso
Cuido de mim
Olho meu caminho
E receio ser morta
Por uma só gota de chuva.

Bertold Brecht


terça-feira, 23 de outubro de 2012

"A Lua das Águas"


Fotografia de Brian Gordon Green

Anoitece
e uma lua cheia surge 

espalhando esplêndidas paisagens sobre as águas
no teu corpo
e nos teus olhos.

Dímitra Mandrá
(tradução de José Carlos Marques)



segunda-feira, 22 de outubro de 2012



"Mulher Surrealista", de João Sebastião

Tudo em meu corpo adoece.
Tudo em meu corpo adoece quando choro.
Tudo em meu corpo chora.
Choro em todos os meus cantos.
Choram cantos e todos
choram todos os cantos.
Meus cantos são todos os cantos que choram.
Tenho muitos cantos
e eles choram.
Me alargo em tudo
e tudo me alaga.
Me alaga o rio quando choro.
O rio me alaga e me alarga.
Chora um rio em mim.
Um rio é um canto meu que chora.
Meu avesso é um canto meu que floresce.
Meu avesso é um canto meu que chora e floresce.
Quero florescer como choro que brota
e como rio que alaga quando me deito.

Adriana Monteiro de Barros


domingo, 21 de outubro de 2012

"Breve"



Desconheço a autoria da imagem

Breve
o botão que foste
e o pudor de sê-lo.
Breve
o laço vermelho
dado no cabelo.
Breve
a flor que abriu
e o sol mudou.
Breve
tanto sonho findo
que a vida pisou.

João José Cochofel


sábado, 20 de outubro de 2012

"Fragmento Vida"



Desconheço a autoria da imagem

Postais,
envelopes,
letras, 
capitulo
de história
vivida,
amigos
à distancia. 
A vida
se compõe
de pedacinhos
de saudade. 

Delores Pires
In: A Estrela e a Busca


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

"Saudade"


Desconheço a autoria da imagem

De quem é esta saudade
Que meus silêncios invade.
Que de tão longe me vem?

De quem é esta saudade,
De quem?

Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
Aqueles lábios - desejo...

E estes dedos engelhados.
E este olhar de vã procura,
E esta boca sem um beijo...

De quem é esta saudade
Que sinto quando me vejo?

Gilka Machado
in"Velha Poesia"


quinta-feira, 18 de outubro de 2012



Desconheço a autoria da imagem

Beija-flores pendurados
nas flores
são coloridos
trapezistas
fazendo acrobacias
e distribuindo beijos
no azul do dia
beija-flores 
são beijos voadores.

Roseana Murray


terça-feira, 16 de outubro de 2012

"Lições"


Fotografia de Pauline St. Denis

Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.

Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.

Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.

Trémula, a haste
me pede
o adiar da noite.

Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.

Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.

Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?

Mia Couto


segunda-feira, 15 de outubro de 2012


Desconheço a autoria da imagem

Baila no meu peito
uma dor, anda, pula
deita, dança, baila dor,
bailando nos lábios,
dor bailarina
anda vem menina
dançar comigo
atrás da cortina
anda vem menina
deitar comigo
que a noite termina
anda vem comigo
ou de uma vez por todas
me elimina

Alice Ruiz


domingo, 14 de outubro de 2012

"A Palavra Impossível"


Desconheço a autoria da imagem

Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
A vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
As vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
A impossível palavra da verdade.

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
Para eu guardar dentro de mim,
Para eu ignorar dentro de mim
A única palavra sem disfarce -
A Palavra que nunca se profere.

Adolfo Casais Monteiro



sábado, 13 de outubro de 2012

"Cenário"


‎Fotografia de Guido Cozzi

No afinal do dia
o sol foge no horizonte.
Perolas vermelhas.

Delores Pires
In: O livro dos Haicais

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

"Amigo"


Fotografia de Richard T. Nowitz

Amigo, toma para ti o que quiseres,
passeia o teu olhar pelos meus recantos,
e se assim o desejas, dou-te a alma inteira,
com suas brancas avenidas e canções.

Amigo - faz com que na tarde se desvaneça
este inútil e velho desejo de vencer.

Bebe do meu cântaro se tens sede.

Amigo - faz com que na tarde se desvaneça
este desejo de que todas as roseiras
me pertençam.

Amigo,
se tens fome come do meu pão.

Tudo, amigo, o fiz para ti. Tudo isto
que sem olhares verás na minha casa vazia:
tudo isto que sobe pelo muros direitos
- como o meu coração - sempre buscando altura.

Sorri-te - amigo. Que importa! Ninguém sabe
entregar nas mãos o que se esconde dentro,
mas eu dou-te a alma, ânfora de suaves néctares,
e toda eu ta dou... Menos aquela lembrança...

... Que na minha herdade vazia aquele amor perdido
é uma rosa branca que se abre em silêncio...

Pablo Neruda, in "Crepusculário"


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

"A Solidão E A Sua Porta"


Desconheço a autoria da imagem

Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
E quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha)

Quando pelo desuso da navalha
A barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha

Arquitetar na sombra a despedida
Deste mundo que te foi contraditório
Lembra-te que afinal te resta a vida

Com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório.

Carlos Pena Filho


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

"Cinco Movimentos I"


Desconheço a autoria da imagem

Que amor é esse que, desperto, dorme
e quando acorda faz-se ambíguo sonho,
transfigurando o belo no medonho
e em noite espessa a vida multiforme?

Então amor é só o que suponho,
o que não digo por ser tão informe
que fôrma alguma lhe é jamais conforme
como este molde em que teimoso o ponho?

Será amor o que se esquiva à fala
ou à linguagem que o pretende claro?
E o que seria esse tremor mais raro
que ao aflorar parece que se cala?

Amor oblíquo que olha de soslaio,
mas que ilumina e queima como raio...

Ivan Junqueira,
In “De Cinco Movimentos”


terça-feira, 9 de outubro de 2012

"Testamento do Homem Sensato"


Fotografia de Nik Wheeler

Quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: “Ele era assim...”
Mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.

Aceita o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui:
Foi mais que longa a vida que eu vivi,
para ser em lembranças prolongada.

Porém, se um dia, só, na tarde em queda,
surgir uma lembrança desgarrada,
ave que nasce e em vôo se arremeda,

deixa-a pousar em teu silêncio, leve
como se apenas fosse imaginada,
como uma luz, mais que distante, breve.

Carlos Pena Filho



domingo, 7 de outubro de 2012

"O Estranho"



Desconheço a autoria da imagem

Quando menino
desenhei caminhos
no vento: 

viajei
em sonhos
e miragens

Oh! com que espanto
vi crescer do espelho
o homem que invadiu
meu espaço encantado. 

Wilson Pereira


sábado, 6 de outubro de 2012

"A Orquídea"



"Orquidea Negra", by Vespertino

A orquídea parece
uma flor viva, uma
boca, e nos assusta.
Flor aracnídea.

Vagamente humana,
boca, embora feita
de inocentes pétalas,
já supõe perfídia.

Já supõe palavra
embora muda
Já supõe insídia.

Que estará dizendo
o lábio quase humano
da orquídea?

Cassiano Ricardo
in Antologia Poética 


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

"Drummondiana"



"Solitude", by myndbyndr

E agora maria?
o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia
e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria.

Alice Ruiz


quinta-feira, 4 de outubro de 2012

"Dos Azuis"



Fotografia de Andy Kingsbury

Azuis sejam teus sois
abaixo ou acima dos lençóis.
Azuis sejam os cantares
aos ouvidos dos teus pares.
Azuis sejam os teus sons
das águas marinhadas
e que sejam dos tons
as tuas mais próximas madrugadas...

Cézar Ubaldo


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

"Às Vezes"



"Water Collage", de Margaret Carsello

Às vezes
frequentemente às vezes
quero um reino
que não existe
senão debaixo da minha pele. 
E saio em busca desse reino
enfiando-me nos mares
dobrando cabos e tormentas
predendo-me nas rotas
de um cone sombreado. 
Ainda que amarrada ao mastro
da nau tão incompleta
que capitaneio
quero ouvir sereias
e sinais de aves. 

Mas debaixo desse mar
negro e profundo
um outro reino espreita
e me põe medo. 

Neide Archanjo


terça-feira, 2 de outubro de 2012



Fotografia de Bob Thomas

Dentro de mim
tudo sangra
geme
se dilata.
Só tua imagem
permanece intocada
sombra debruçada
sobre meu peito.

Miriam Portela


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

"Repouso"



Fotografia de http://www.corbisimages.com/

Dá-me tua mão
E eu te levarei aos campos musicados pela canção das colheitas
Cheguemos antes que os pássaros nos disputem os frutos,
Antes que os insetos se alimentem das folhas entreabertas.
Dá-me tua mão
E eu te levarei a gozar a alegria do solo agradecido,
Te darei por leito a terra amiga
E repousarei tua cabeça envelhecida
Na relva silenciosa dos campos.
Nada te perguntarei,
Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes
E as palavras do meu olhar sobre tua face muito amada.

Adalgisa Neri


Interlúdio com ...

Will You Still Love Me Tomorrow - Norah Jones

Will You Still Love Me Tomorrow

Norah Jones

Tonight you're mine completely
You give your love so sweetly
Tonight the light of love is in your eyes
Will you still love me tomorrow?

Is this a lasting treasure
or just a moment pleasure?
Can I believe the magic of your sight?
Will you still love me tomorrow?

Tonight with words unspoken
You said that I'm the only one
But will my heart be broken
When the night meets the morning sun?

I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now cause I won't ask again
Will you still love me tomorrow?

Will you still love me tomorrow?
Will you still love me tomorrow?...

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