Estou de volta... como a primavera!

"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa..."

Manuel Antonio Pina

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

A balada da água do mar



Art: dailymail.co.uk
O mar
sorri ao longe.
Dentes de espuma,
lábios de céu.

- Que vendes, ó jovem turva,
com os seios ao ar?

- Vendo, senhor, a água
dos mares.

- Que levas, ó negro jovem,
mesclado com teu sangue?

- Levo, senhor, a água
dos mares.

- Essas lágrimas salobras
de onde vêm, mãe?

- Choro, senhor, a água
dos mares.

- Coração, e esta amargura
séria, onde nasce?

- Amarga muito a água
dos mares!

O mar
sorri ao longe.
Dentes de espuma,
lábios de céu.

Federico Garcia Lorca





Esta tarde



Ilustração de Helen Rogers

esta tarde

era necessário uma catástrofe imensa para que teu nome sobressaísse ou para que me caia o coração aos pedacinhos no telhado como cai a chuva num alarde de mansidão

era tarde e este poema ainda pode dar certo
não por ser o arremedo de uma voz confusa
quiçá rouca que brota aérea de uma roda gigante descomunal entre as folhas das mais altas árvores esta tarde

então dançamos sem olhar-nos bem ou justamente por olharmo-nos muito bem foi que demos as mãos e pudemos então fechar os olhos e simplesmente dançar

e assim respirar o ar mais puro e sentir o vento nos cabelos e o mundo a rodopiar-nos
numa estrada semicerrada entre o corpo e o espírito
há tua presença insone esta tarde

teu ser que balança e gira por entre o jardim
por entre as casas
por entre todas as coisas humanas
e não humanas

há tua solidão quase que do outro lado do país
permita deus que eu um dia nasça em Pernambuco
assim perto de você e do mar

um imenso coração cambaleia na avenida
esta tarde perto de uma praia
verde sobre o colorido alegre
de uma beleza pressentida em mim

Sérgio Villa Matta




   

Túrgida-mínima



"Flor Subeterranea" - por Pham Thu Trang 
Imaginei que te encantaria a luminescência dos meus cabelos
Pintei-os para entregar-te os caracóis na caixinha da dançarina
A cada volta da corda, ela gira, e teu rosto é meu pensamento

Assim me possuirás bem juntinho entre as rosas e os alecrins
do nosso jardim sagrado

Amor que resiste a silêncio fome
gesto
é fonte de júbilo força da pele
Virgem é artéria temporal o meu Amor

Não importa se moras em meu delírio
meu coração te reconhece em todos os espasmos
do Ar e da Água.

Lucia De Moura Chamma




Anotação


Desconheço a autoria da imagem

ajustarei tuas asas às minhas costas
para atravessar Pierrô Arlequim & Colombinas
e a ausência de um Mar
nas planícies de ti

ajustarei tuas asas aos meus sonhos
colando serpentinas em nosso coração quebrado, mas
docemente aceso

Lucia De Moura Chamma




A luva


Fotografia de Renato Reis (Nato Reis)

a luva | a mão na louça
areando o dia indigesto
_
e respingar de soluços
enquanto louca afio a faca
_
favos de jaca sobre a mesa exposta, visgo verde.
_

Nato Reis 





Insônia


Fotografia de Noriaki Yokosuka 

Falta me fazem carneiros.
Falta me fazem cabras
Falta me fazem cabritas.
Falta me fazem jardins.
Falta me fazem carteiros.
Falta me fazem cartas.
Falta me fazem itas
Falta me fazem jeans
Falta me fazem erros
Falta me fazem armas
Falta me fazem negras pedras
Falta me fazem fins.
Conto, aumento ponto.
Reconto e ainda falta algum.
Tem muita estrada.
Que nada - não é bem assim!
Tua sombra, de meu medo, zomba
Quando sou mais frágil.
Petrificada -mente menos- Ágil
cresce, ela, diante de mim.
Não. Não é o fim.
Falta me fizeste tu
Quando julguei amanhecer o dia, enfim.

Eupaitio Caska 




quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Algumas senhoras



Fotografia do filme Dracula, com o ator Gary Oldman

Todas a noites, algumas senhoras
disputam o assento da cadeira do meu quarto.
Algumas chegam assim que o sol se põe
vestidas ainda de algum resto luz.
Outras, velhas notívagas
chegam sempre mais tarde
travestidas de escuridão.
Melancolia é sempre a primeira
roupas longas e largas / e um véu opaco
a esconder-lhe a face misteriosa.
Gosta do pé da cama onde se instala
feito um gato / e finge que dorme.

Tão velha quanto a vida, a dor é visita constante
corcunda / coberta de trapos
parece carregar o mundo nas costas.
Traz nas imensas mãos martelo e ponteira
de latejar têmporas.

Há também uma louca descabelada
olhos arregalados que se contorcem
entre espantos antigos e vagares sem rumo
que compulsivamente faz versos
escreve / rasga / escreve / rasga / escreve
depois, atira tudo pela janela
[há sempre vento]
sob o olhar abismado de outras tantas senhoras
que invadiram o quarto e agora tentam
me sufocar.

É nessa hora então, que me atiro pela janela
[não há mesmo lugar onde se possa ir / ou ficar]

E assim amanhece / eu aos pedaços / descalça
vagando só, pelas ruas de pedra
e elas na minha cama
tecendo tramas pelas minhas costas.
Moiras – entre outras e outros
pois os velhos senhores também sempre chegam
embora mais tarde. E ainda mais graves.
como os pesadelos.

Nydia Bonetti









Sucessão



Imagem da Web

Depois que eu voltar
de dentro das molduras
apago os meus retratos
invento outras figuras

convoco os meus fantasmas
convido mil demônios
e dou posse a todos eles
no governo dos neurônios.

Pio Vargas




Recado






Desconheço a autoria da imagem
 
Preciso que você veja
Entre as coisas esquecidas
A louça suja na pia
O mofo pousando cruel na doçura das frutas
Observe, por favor, se não deixei
Naquele canto do quarto
Por onde os insetos entram
Na ferrugem do ferrolho da janela da cozinha
Essa que sempre te acorda
Quando eu insisto em abrir
Assim que o sol se ajeita melhor no céu
Procure, na caixa de areia dos gatos
Entre os pelos dos bichanos onde correm as pulgas que não matei
No desgaste da bicicleta largada no jardim
Talvez no banco de trás do carro que estraga estraga e você conserta
Olhe também embaixo das espreguiçadeiras
Na agua amarga do jarro de flores que você esquece de trocar
Na ansiedade que antecede a raiva, quando a moça do telemarketing
Não atende, não atende, não atende
Sua solicitação
Entre os livros da estante, tantos não lidos _ em eterno estado de espera e culpa burguesa
Nas mil declarações de amor que lhe chegam in box
Vigie se por ali, no cheiro do café
No pão cortado, os farelos sobre a mesa
No silêncio entre as notas de sua música preferida
Dá uma olhada se não larguei por esses cantos
Os sete pedaços do meu coração

Assionara Souza




4



 Fotografia minha, por do sol em Praia do Dentinho, Araruama - RJ

Tem uma estética linda no relógio. ... e a luz dessa hora, ah...
O entardecer me soa como algo parecido assim:
... se é para anoitecer, já te busco agora...

Marco Antônio Prado



 

Interlúdio com ...

Will You Still Love Me Tomorrow - Norah Jones

Will You Still Love Me Tomorrow

Norah Jones

Tonight you're mine completely
You give your love so sweetly
Tonight the light of love is in your eyes
Will you still love me tomorrow?

Is this a lasting treasure
or just a moment pleasure?
Can I believe the magic of your sight?
Will you still love me tomorrow?

Tonight with words unspoken
You said that I'm the only one
But will my heart be broken
When the night meets the morning sun?

I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now cause I won't ask again
Will you still love me tomorrow?

Will you still love me tomorrow?
Will you still love me tomorrow?...

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