Estou de volta... como a primavera!

"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa..."

Manuel Antonio Pina

terça-feira, 1 de outubro de 2019


Imagem: Pinterest

Guarda-me adormecida para sempre no teu peito
ou deixa-me voar uma vez mais
sobre esta terra de ninguém
onde morro por qualquer coisa que me fale de ti.
Há noites assim em que o silêncio se transforma
ao de leve numa lâmina que minuciosamente
rasga o linho onde ficou esquecido
o corpo que habitamos
em provisórias madrugadas felizes.

Alice Vieira



arte de Sarah Wood

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direção
é igualmente passageira
e verídica.

Raul de Carvalho



Imagem: Pinterest

Como pode
a mais frágil borboleta
transportar em si
montanhas
cidades rios oceanos
a bandeira caída no azeite
o poente cigano que pede boleia
a nuvem em tamanho natural
a metafísica do sangue
o véu em chamas
a casa feita de água
o vento batendo portas e janelas
ao longo deste corredor feito de palavras
e como se isso fosse pouco
eu
e a tua ausência.

Artur do Cruzeiro Seixas




Fotografia de Anthony Lau

Vinte e um. Noite. Segunda-feira.
A silhueta da cidade na neblina.
Algum desocupado inventou
essa história de que há amor no mundo.
E por preguiça ou por tédio,
todos acreditaram nele e assim viveram:
esperando encontros, temendo rupturas
e cantando canções de amor.
Mas a outros será revelado o segredo
e sobre estes recairá o silêncio.
Eu tropecei nele casualmente e, desde então,
sinto-me como se estivesse doente.

Anna Akhmátova
trad. de Lauro Machado Coelho



Nós


Arte de Annie Leibovit

Nós fomos noite e noite até ser dia
nós fomos noite e a noite fomos nós
fomos a noite e os corpos e esses nós
com que a noite se atava e desfazia.
Fomos a noite e o que sobrava dela
e o que sobrava dela foram luas
que circulam à volta de uma estrela
ora nas minhas mãos ora nas tuas.
Manuel Alegre




Escultura "Expansão", em Nova Iorque

Ardes-me no peito onde a custo
o meu amor perpassa, e vai até
às loucuras do corpo
e às agruras da alma.
Ardes-me no minuto, no segundo,
na hora amaciada por olhos entrevistos,
ardes-me no sangue obstruído
e na certeza muda que me diz
que o coração existe.

Pedro Tamen




sábado, 21 de setembro de 2019


A imagem pode conter: 1 pessoa
Fotografia de Andri Laukas

Ouve-me com teus olhos
Porque minha queixa é muda.
Acaricia-me com teu pensamento
Porque meu corpo está imóvel.
Beija-me com tuas mãos
Porque minha boca te espera.
Fala-me com o silêncio dos momentos de amor
Porque os ouvidos da minha vida
Se abrirão como as flores
Na úmida e infinita madrugada.

Adalgisa Nery





A imagem pode conter: atividades ao ar livre
"Sheltered", fotografia de Kurt Van Wagner

E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada (*) no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos.

Rosa Lobato Faria

(*)adjetivo
1.
colocada no alcândor ('cume'); situado em ponto alto, elevado.
"um castelo a... no monte"
2.
figurado (sentido)
que se exaltou ou sublimou.

A imagem pode conter: nuvem, céu e atividades ao ar livre
"Lovers", fotografia de Kurt VanWagner

Com as palavras te abraço. Com
as palavras te dispo. Com as palavras
te beijo. Com as palavras te escrevo.
Com as palavras subo o dia, sei do sangue, sonho
o tempo. Com palavras falo, com palavras penso,
com palavras sinto. Com as palavras canto.
Com elas me acalmo. E me enfureço. E me culpo
e absolvo. Com palavras me recordo. Por todas elas
me esqueço. E me sei, e me dou, e me doo. Com
as palavras me deito. E amanheço. E a todas
agradeço. De todas me despeço.
A todas reconheço.

Por elas sou o ponto de partida
e também caminho de regresso.

Joaquim Pessoa



Fotografia de Claudia Regina

É preciso amar o inútil.
Criar pombos sem pensar em comê-los, 
plantar roseiras sem pensar em colher rosas, 
escrever sem pensar em publicar, 
fazer coisas assim, sem esperar nada em troca.
A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, 
mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas da vida.
A música. Este céu que nem promete chuva.
Aquela estrelinha nascendo ali... está vendo aquela estrelinha?
Há milênios não tem feito nada, não guiou os reis magos,
nem os pastores, nem os marinheiros perdidos... apenas brilha. 
Ninguém repara nela porque é uma estrela inútil. 
Pois é preciso amar o inútil porque no inútil está a beleza.

Lygia Fagundes Telles


Interlúdio com ...

Will You Still Love Me Tomorrow - Norah Jones

Will You Still Love Me Tomorrow

Norah Jones

Tonight you're mine completely
You give your love so sweetly
Tonight the light of love is in your eyes
Will you still love me tomorrow?

Is this a lasting treasure
or just a moment pleasure?
Can I believe the magic of your sight?
Will you still love me tomorrow?

Tonight with words unspoken
You said that I'm the only one
But will my heart be broken
When the night meets the morning sun?

I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now cause I won't ask again
Will you still love me tomorrow?

Will you still love me tomorrow?
Will you still love me tomorrow?...

Postagens populares

Total de visualizações de página