"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa..."

Manuel Antonio Pina

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Grandes Armazéns


Photo by Georges Dambier ( Capucine at Cafe de la Paix, Paris, 1952.)

Quando era criança, dizia à minha mãe,
em tempo de chuva,
em tempo de flores,
nas Galerias Lafayette ou Galerias Barbès:
"Mamãe, compra-me, por favor, um poema."
Ela era doce, ela era demasiado prática
e comprava-me romances,
os Jules Verne,
os Maupassant e os Dickens.

Quando era criança, dizia à minha mãe,
em tempo de amor,
em tempo de medo,
no Monoprix ou na Félix Potin:
"Mamãe, compra-me, por favor, o invisível."
Ela era boa, ela era previdente
e comprava-me coisas:
camisolas, trotinetes,
kodaks, bicicletas.

Acabei por me calar e por escrever poemas.
Há muito tempo que a minha mãe morreu,
Jules Verne envelheceu
e as minhas bicicletas já não têm rodas.
Em tempo de cansaço,
em tempo de raiva,
vou ao Supermercado,
beber um conhaque sem gosto.

Quando, mais tarde, for uma criança
num mundo melhor,
direi à minha mãe:
"Mamãe, compra-me, por favor, o silêncio."

Alain Bosquet



segunda-feira, 13 de junho de 2016


Foto de Haroldo Castro de Erfud 

As mulheres caminham sobre a solidão das dunas. 
Mas dentro delas adormece a imensidão do vento, a insubmissão do mar.
Grito mudo de asas negras, no riso oculto da carne. 
E a condição eterna de se ser a sombra, a casa, o bálsamo 
e a chaga.


Maria Jorgete Teixeira


quinta-feira, 2 de junho de 2016

Ato de Contrição

Pintura de Dorina Costras

Não me arrependo de meus erros:
nada mais que sofrimento e vida.
Não me arrependo de meus beijos:
deixaram um pouco de mim
em muitas bocas.
Não me arrependo de meus pensamentos:
eram belos como mulheres nuas.
Perdoai, Senhor, se alguma vez
não fui eu mesma.


Laís Corrêa de Araújo
Em "Caderno de poesia"



quarta-feira, 1 de junho de 2016


Arte de Dorina Costras

Era manhã e anoiteceu,
sem ter havido tarde nem meio-dia,
e tudo em volta envelheceu,
perdendo cor e poesia.

Mas tu chegaste e a tarde aconteceu
e voltei a ser eu.

Torquato da Luz


segunda-feira, 23 de maio de 2016


imagem Google

aqui
nesta pedra
alguém sentou
olhando o mar

o mar
não parou
pra ser olhado

foi mar
pra tudo quanto é lado.

Paulo Leminski



domingo, 22 de maio de 2016

Medo


Imagem daqui

Medo de te amar demais,
quando demais não é suficiente.
Medo de não saber por onde vais,
quando te sei ausente.

Medo de ficar só entre os demais,
quando se torna evidente
a abundância de sinais
de que não estás presente.

Medo de te amar de mais,
porque demais não é suficiente.

Torquato da Luz


quinta-feira, 19 de maio de 2016

Tecelã


Fotografia de © Benoit Courti

Costurei palavras,
retalhos colhidos
no baú dos devaneios.

Fiz, do manto-poema,
agasalho
das esperanças

Adélia Maria Woellner




quarta-feira, 18 de maio de 2016

Amputação


Fotografia de © Benoit Courti

Algo, em mim, está morto.
O lado direito inerte, ausente,
de mim está alheio.
Do lado esquerdo
o fito,
como se a um outro
olhasse.
Metade de mim persiste,
vive,
e contempla algo, ardendo,
estiolando,
que em mim está morto.
Um perfil que apodrece
e eu vivendo
e vendo ausentar-se de mim
algo que em mim está morto
definitivamente.

Rui Knopfli


terça-feira, 10 de maio de 2016

Um despertar sem sonhos

.
.
A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir

É quando, ao despertar, 
revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias


Carlos Drummond de Andrade



quinta-feira, 5 de maio de 2016



Dê asas pr'eu aterrissar no céu
Dê paraquedas pr'eu saltar do chão pro céu
Para uma estrela acender na minha mão

Dê nuvens que se movem feito ondas
Ondas que batem e arrebentam lentas em mim
E dão banhos de querubim na minha asa

Dê asa, dê asa
Que o céu desaba
Dê asa, dê asa
Que o céu, minha casa
Dê asa, dê asa, dê asa
Quando a água vaza além da água
Dê céu, dê céu, dê céu
Quando do solo o sol também faz chuva
Dê céu, dê sol, dê asa
Que quando é noite eu tenho mágoa



Interlúdio com ...

Will You Still Love Me Tomorrow - Norah Jones

Will You Still Love Me Tomorrow

Norah Jones

Tonight you're mine completely
You give your love so sweetly
Tonight the light of love is in your eyes
Will you still love me tomorrow?

Is this a lasting treasure
or just a moment pleasure?
Can I believe the magic of your sight?
Will you still love me tomorrow?

Tonight with words unspoken
You said that I'm the only one
But will my heart be broken
When the night meets the morning sun?

I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now cause I won't ask again
Will you still love me tomorrow?

Will you still love me tomorrow?
Will you still love me tomorrow?...

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