terça-feira, 8 de dezembro de 2009

"Os Versos Que Te Fiz"

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Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
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Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder ...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer !
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Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!
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Amo-te tanto ! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!
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Florbela Espanca
(8 de dezembro de 1894 + 8 de dezembro de 1930)

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Hoje, há 79 anos de sua morte, uma simples homenagem a esta
que é a maior poetisa do mundo...
pois tornou-se eterna a Mais Bela Flor do Alentejo...

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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

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Imagem:"Sleeping Muse"
Constantin Brancusi
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... La poesía es como el viento,
o como el fuego, o como el mar.
Hace vibrar árboles, ropas,
abrasa espigas, hojas secas,
acuna en su oleaje
los objetos que duermen en la playa..."

José Hierro
(España, 1922 - 2002)

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domingo, 6 de dezembro de 2009

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Deixa que eu te toque
Com um só acorde de guitarra
Deixa que eu te componha nas minhas letras
E os meus dedos percorram a pauta da nossa música
Com uma só voz
com uma só vontade
Deixa que eu cante sussurrando
A melodia mais bela de amor
E te veja dançando nas minhas mãos
Deixa que eu te ouça
Com uma só nota musical
E te agarre,
te envolva e
te toque
Com um só toque
com o acorde da minha guitarra.

Vera Jesus

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sábado, 5 de dezembro de 2009

"Mozart no Céu"

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No dia 5 de dezembro de 1791 Wolfgang Amadeus
Mozart entrou no céu, como um artista
de circo, fazendo piruetas extraordinárias
sobre um mirabolante cavalo branco.
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Os anjinhos atônitos diziam: Que foi? Que não foi?
Melodias jamais ouvidas voavam nas linhas suplementares
superiores da pauta.
Um momento se suspendeu a contemplação inefável.
A Virgem beijou-o na testa
E desde então Wolfgang Amadeus Mozart foi o mais
moço dos anjos.
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Manuel Bandeira
in Lira dos Cinquent'anos

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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

"A Cor dos Meus Dias"

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Cinza leve de fundo
com um pingo vermelho
de paixão acesa.
Manchas descontínuas de verde esperança.
Um pouco de azul em tom de ilusão.
Pinceladas negras
em horas incertas.
Esta é a cor dos meus dias
tinta de óleo em mim pintada
que escorre lenta na tela da vida.
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Alice Daniel

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Update:
Fotografia de Chris Everard
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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

"Mudança"

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Fotografia de Chris Everard
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Lá se vai a casa
cheia de medos da infância
e malas confidentes.
Os caminhos a levam.

Da viagem
o cansaço acomoda
panelas, móveis
e minha coleção de selo.

O assoalho geme à falta de intimidade.

A noite cuida do meu quarto:
olhos sonolentos tropeçam
na áspera parede de chapisco
— montanhas intransponíveis.
Amanhã saberei teus cheiros,
tua voz e o segredo de tuas cores.

Hoje não tenho a chave da porta.
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Augusto Sérgio Bastos
in Rascunho

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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

"Fio"

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Afiada,
a pá lavra
a terra.
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Afiada,
a palavra
enterra.
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Oswaldo Antonio Begiato

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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

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A palavra
tem a sede
do peixe
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escapa sempre
do poeta
em folha rasa
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vai ao fundo,
volta à tona,
respira
e escapa do poema
outra vez
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Ademir Antonio Bacca

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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Rosa Enluarada

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A rosa vermelha,
fresca e orvalhada,
sobre o teclado frio,
inerte, pousada
diz mais que muito.
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A rosa vermelha,
tenra e molhada,
sobre o teclado cria
e verte o dito quieto.
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A rosa vermelha,
infante e felina,
sobre o teclado ousa
dizer mais que muito.
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A rosa vermelha,
invade meus olhos.
Nada teme: inteira sua;
é lua nua em íntimo culto.
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Jairo De Britto
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domingo, 29 de novembro de 2009

Riachinho

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As águas claras
me contam segredos
de sol, de céu, de ar
e cantam acalantos
de ninar
enquanto correm ligeiras
da montanha para o mar.
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Roseana Murray
In Fardo de carinho


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sábado, 28 de novembro de 2009

Desconforto

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Acordou de manhã
e calçou seu destino.
Achou-o um pouco apertado,
mas ainda assim
seguiu seu caminho.
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Durante o dia, a dor aumentou.
Doía no carro, dóia na rua, doía no elevador.
Parou na calçada e chorou.
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Não sabia o que fazer.
Não sabia como se salvaria dessa teia.
Só não pensou no mais simples:
tirar os sapatos
e andar com os pés na areia.
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Moacir Caetano

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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Ao Sol

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Imagem: "Pôr do Sol na Figueira da Foz", de Isabel
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Eu te saúdo, Sol das estações,
Na tua viagem pelos altos céus.
Rasto indelével no cimo dos montes,
Senhor amável de todas as estrelas.

Mergulhas sereno nas trevas do mar,
E nada te toca e nada tu sofres.
Depois te alevantas da calma das ondas,
Como jovem príncipe coroado de rosas.

Oração de tradição oral - Cultura Céltica
(gaélico escocês)
Trad.: José Domingos Morais
in Rosa do Mundo

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Este post (poema e imagem) foi gentilmente cedido ao Interlúdio pela amiga Isabel,
autora do Blog "Com Calma, Com Que Alma", recanto de lindas fotografias de sua autoria
e de poesias muito bem escolhidas.

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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

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Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
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Alberto Caeiro
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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

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Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
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Álvaro de Campos
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terça-feira, 24 de novembro de 2009

Estamos Juntos

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Estamos juntos, quando a poesia nos toca
e entramos como reis no Reino do Silêncio...
Quando sentimos que tempo e risos e lágrimas e tudo
em nós madurece...
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Estamos juntos, quando a noite é fria ou o calor custa a suportar,
quando a solidão é mais solidão
e vemos a palavra Amor na boca de tantos ser profanada...
Oh! Ainda que nos separem oceanos,
estamos juntos, bem juntos, bem o sabes,
numa profunda companhia!
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Cristovam Pavia
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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Amor Como Em Casa

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Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
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Manuel António Pina

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domingo, 22 de novembro de 2009

"Homem"

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Inútil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis,
nem acordes,
nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito a menos infinito.
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António Gedeão
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sábado, 21 de novembro de 2009

"Lua Miúda"

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Mais do que
qualquer coisa,
nesta minha vida
de hospedeiro,
queria te amar
ardentemente
com minhas portas
escancaradas
e minhas janelas
descortinadas.
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Mas tu és estrela
e eu lua miúda.
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Oswaldo Antônio Begiato
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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

"Clave de Sol"

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Faz música pra mim e coloca
em envelopes fechados por língua morna.
Faz versos nas costas da lua.
Dedilha nossos desafinos.
Na areia da praia anoitecida,
deita minha ausência e colhe os ruídos.
Oferece na concha das mãos.
Segredos. Canta baixinho e grita
desespero para abafar o silêncio das pausas.
Desatina mariposa,
asas de procura nos meus olhos acesos.
Desenha em ponta de agulha sobre a pele
e assina o nome por baixo.
Criptografia.
Espera.
Até ouvir meu riso com gosto de maçã
a provocar cócegas na saudade.
Ele faz música e promessas bordadas em gaze.
Eu sangro.
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Ane Aguirre

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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

"Subversiva"

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A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois
reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça
E promete incendiar o país
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Ferreira Gullar

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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

"Apegado a Mim"

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Floco de lã de minha carne,
que em minha entranha eu teci,
floco de lã friorento, dorme apegado a mim!
A perdiz dorme no trevo
escutando-o latir:
não te perturbem meus alentos,
dorme apegado a mim!
Ervazinha assustada
assombrada de viver,
não te soltes de meu peito:
dorme apegado a mim!
Eu que tudo o hei perdido
agora tremo de dormir.
Não escorregues de meu braço:
dorme apegado a mim!
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Gabriela Mistral
(Tradução - Maria Teresa Almeida Pina)


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terça-feira, 17 de novembro de 2009

"Diário de um Apaixonado"

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Sozinho, o apaixonado tem a caligrafia da tristreza.
Aproveita a neblina para deixar recados nas vidraças.
Redige o alfabeto emendado, não suporta as letras
separadas. Pára de repente o olhar e não avança.
Observa os cachorros como anjos atrapalhados
acomodando suas asas. Comove-se com o modo que
lambem as patas, os becos das patas. Capaz de olhar
longamente os cachorros dormindo, para não aprender
nada a não ser os cachorros dormindo.
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O apaixonado é um
comovido à toa.
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Fabrício Carpinejar
in "Diário de um Apaixonado. Sintomas de um bem incurável"

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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

"Obrigado, Violinos!"

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Obrigado, violinos, por este dia
de quatro cordas.
É puro o som do céu,
a voz do ar.
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Pablo Neruda
in Últimos Poemas
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domingo, 15 de novembro de 2009

"Dá-me Tua Mão"

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Dá-me tua mão
E eu te levarei aos campos musicados pela
canção das colheitas.
Cheguemos antes que os pássaros nos disputem
os frutos,
Antes que os insetos se alimentem das folhas
entreabertas.
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Dá-me tua mão
E eu te levarei a gozar a alegria do solo
agradecido,
Te darei por leito a terra amiga
E repousarei tua cabeça envelhecida
Na relva silenciosa dos campos.
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Nada te perguntarei,
Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes
E as palavras do meu olhar sobre tua face muito
amada.
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Adalgisa Nery

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sábado, 14 de novembro de 2009

"Pintura"

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Eu sei que se tocasse
com a mão aquele canto do quadro
onde um amarelo arde
me queimaria nele
ou teria manchado para sempre de delírio
a ponta dos dedos.
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Ferreira Gullar
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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

"A Criança Que Ri Na Rua"

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A criança que ri na rua,
A música que vem no acaso,
A tela absurda, a estátua nua,
A bondade que não tem prazo
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Tudo isso excede este rigor
Que o raciocínio dá a tudo,
E tem qualquer cousa de amor,
Ainda que o amor seja mudo
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Fernando Pessoa

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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

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Repara no meu rosto e mede
a profundidade das minhas rugas.
Observa de perto o meu cabelo branco
e passa os dedos pelas minhas cicatrizes.
Tudo isso é a árvore que eu sou.
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Da copa inatingível e secreta
até ao abismo das fundas raízes.
Se me falares baixinho lembrarei
as suaves brisas de Outono e desprenderei
abraços dos meus ramos em folhas sedosas
para te atapetar o caminho.
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Se um dia te cansares de mim
corta-me. Serra-me ao meio. Arde-me.
Mas peço-te meu amor
aproveitando este vento da tarde:
nunca na vida me deixes sozinho.
A solidão secar-me-ia de dor.
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José António Gonçalves

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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

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Recomecemos então, as mãos
palma com palma.
Diz, não digas, a palavra.
As palavras terão sentido ainda?
Haverá outro verão, outro mar
para as palavras?
Vão de vaga em vaga,
de vaga em vaga vão apagadas.
Seremos nós, tu e eu, as palavras?
Onde nos levam, neste crepúsculo,
assim palma a palma,
de mãos dadas?
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Eugénio de Andrade

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