quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

"Criança Desconhecida"



Fotografia de Sebastião Salgado

Criança desconhecida e suja brincando à minha porta,  
Não te pergunto se me trazes um recado dos símbolos.  
Acho-te graça por nunca te ter visto antes,  
E naturalmente se pudesses estar limpa eras outra criança,  
Nem aqui vinhas.  
Brinca na poeira, brinca!  
Aprecio a tua presença só com os olhos.  
Vale mais a pena ver uma cousa sempre pela primeira vez que conhecê-la,  
Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez,  
E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar.  
O modo como esta criança está suja é diferente do modo como as outras estão sujas.  
Brinca! pegando numa pedra que te cabe na mão,  
Sabes que te cabe na mão.  
Qual é a filosofia que chega a uma certeza maior?  
Nenhuma, e nenhuma pode vir brincar nunca à minha porta.  

Alberto Caeiro


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

"Penso, Logo Insisto"



"Melancolia",  de Edvard Munch

Penso
que o dia está propenso
para a insensatez
para o incenso
para a lança
para o lenço
para a dança
para o denso
para a pança
para o  penso
para o lance
para o ranço
o relance
a roma
a romã 
o romance
hoje o dia está dando 

uma chance

Múcio Góes


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

"Partida"


Desconheço a autoria da imagem


Se te pareço
insana
ao beijar a taça
na embriaguez
da noite
fria

é meu adeus
calado
no silêncio rubro
do tinto seco

Cláudia Gonçalves


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

"Moagem"




Trituro
grãos de afeto
colhidos
em campos insones
em busca
de farinha mágica
que alimente
meus dias 
de ausências.

Ademir Antonio Bacca
do livro “O grito por dentro das palavras”


domingo, 12 de fevereiro de 2012

"Paisagem"



Obra de Pierre Auguste Renoir

Desejei-te pinheiro à beira-mar 

para fixar o teu perfil exacto. 

Desejei-te encerrada num retrato 
para poder-te contemplar. 

Desejei que tu fosses sombra e folhas 
no limite sereno dessa praia. 

E desejei: «Que nada me distraia 
dos horizontes que tu olhas!» 

Mas frágil e humano grão de areia 
não me detive à tua sombra esguia. 

(Insatisfeito, um corpo rodopia 
na solidão que te rodeia.)

David Mourão-Ferreira
in "A Secreta Viagem"



sábado, 11 de fevereiro de 2012

"Autobiografia"



Desconheço a autoria da imagem

Meus sapatos são canetas. 
Não deixo rastros, 
deixo letras. 

Meus caminhos são poemas. 
Não deixo lágrimas, 
deixo tremas. 

Assim vou andando 
na minha estrada de papel, 
pendurando as estrelas 
num cordel.

Olegário Schmitt


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

"Ver Claro"



Fotografia de Jovelino Matos Almeida

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

Eugênio de Andrade


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

"Lição"



Fotografia de Jorge Soares

Ouço todos os dias,
De manhãzinha,
Um bonito poema
Cantado por um melro
Madrugador.
Um poema de amor
Singelo e desprendido,
Que me deixa no ouvido
Envergonhado
A lição virginal
Do natural,
Que é sempre o mesmo, e sempre variado.

Miguel Torga


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

"Saudade de Tudo"




Fotografia de Céu Guitart

Saudade, essencial e orgânica,
de horas passadas,
que eu podia viver e não vivi!...
Saudade de gente que não conheço,
de amigos nascidos noutras terras,
de almas órgãs e irmãs,
de minha gente dispersa,
que talvez até hoje ainda espere por mim...

Saudade triste do passado,
saudade gloriosa do futuro,
saudade de todos os presentes
vividos fora de mim!...

Pressa!...
Ânsia voraz de me fazer em muitos,
fome angustiosa da fusão de tudo,
sede da volta final
da grande experiência:
uma só alma em um só corpo,
uma só alma-corpo,
um só,
um!...
como quem fecha numa gota
o Oceano,
afogado no fundo de si mesmo...

João Guimarães Rosa



terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

"As Chaves"


fotografia de Gil Regueiro


Felizes os homens que têm as chaves
porque só encontram portas abertas...
Como podem tantos homens dormir sossegados e felizes
de portas fechadas,
quando essas portas se fecham para tantos homens
que ficam sempre ao relento
e nunca podem entrar? 

Neste mundo de tantas portas,
quando teremos cada um, a sua chave,
e a sua hora de voltar?...

J.G. de Araujo Jorge


Interlúdio com ...


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