Estou de volta... como a primavera!

"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa..."

Manuel Antonio Pina

domingo, 26 de junho de 2016

Ossos e sangue



Sculpture of pensive man in Perth High Street, near to Perth, Perth And Kinross, Great Britai


Para que servem
os sonhos que sempre tive,
se o tempo passou
e me petrificou?

Onde posso
encontrar carne e ossos,
se tudo agora
são pedras?

Como verter
das veias, sangue,
e revelar o pulsar do coração
se pertenço ao mundo mineral?

Como amar
se minhas perdas
fizeram de meus sentimentos
uma rua ladrilhada?

Oswaldo Antônio Begiato



Escultura no parque de Vigeland, Oslo, Noruega, um contato de olho de manutenção dos pares.

olhar o mesmo olho
com outros olhos

em outro olhar
o mesmo olho

nos mesmos olhos
o olhar do outro
de olho

Alice Ruiz



Fiat Lux


Imagem Google

hoje um sol me visitou à noite
e era ao mesmo tempo
tão distante e tão presente
tão luz e tão quente
que adormeci entre seus raios
e acordei com jeito de lua nova
outra vez

Isabella Benicio


De cara lavada


Arte de © Christophe Kiciak

hoje me desfiz dos meus bens
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos

o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos

a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos

a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos

aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos

coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos

Martha Medeiros



Vazio


Imagem daqui

Vazios os lugares
e as mãos abertas
a tatear os rostos
como paredes nuas.
Pálidas as vozes
e nos ouvidos
só apelos de mar
na vaza da maré.
Quando por fim a tarde
aceita a rendição
as mulheres amam
os lugares vazios
e deitam-nos no colo
e embalam-nos
com as vozes sobrantes
do cansaço.
Mesmo os lugares vazios
sonham com a enchente
na cava desse abraço.

Licínia Quitério


Memorias de Dulcinéia XX


Imagem Google

Ao longo dos anos conservei
uma inesperada tristeza refletida
em meus olhos cor da sede.
Pedra a pedra, casa a casa,
sombra a sombra vagueio
pelas sensações e aguardo
que se repitam os sonhos
que resistiram à violência do tempo.
Podia escrever com sangue
o instante, sem amparo,
onde reclinei a cabeça
para aguardar a morte
dos desejos.

Graça Pires


sexta-feira, 24 de junho de 2016

Grandes Armazéns


Photo by Georges Dambier ( Capucine at Cafe de la Paix, Paris, 1952.)

Quando era criança, dizia à minha mãe,
em tempo de chuva,
em tempo de flores,
nas Galerias Lafayette ou Galerias Barbès:
"Mamãe, compra-me, por favor, um poema."
Ela era doce, ela era demasiado prática
e comprava-me romances,
os Jules Verne,
os Maupassant e os Dickens.

Quando era criança, dizia à minha mãe,
em tempo de amor,
em tempo de medo,
no Monoprix ou na Félix Potin:
"Mamãe, compra-me, por favor, o invisível."
Ela era boa, ela era previdente
e comprava-me coisas:
camisolas, trotinetes,
kodaks, bicicletas.

Acabei por me calar e por escrever poemas.
Há muito tempo que a minha mãe morreu,
Jules Verne envelheceu
e as minhas bicicletas já não têm rodas.
Em tempo de cansaço,
em tempo de raiva,
vou ao Supermercado,
beber um conhaque sem gosto.

Quando, mais tarde, for uma criança
num mundo melhor,
direi à minha mãe:
"Mamãe, compra-me, por favor, o silêncio."

Alain Bosquet



segunda-feira, 13 de junho de 2016


Foto de Haroldo Castro de Erfud 

As mulheres caminham sobre a solidão das dunas. 
Mas dentro delas adormece a imensidão do vento, a insubmissão do mar.
Grito mudo de asas negras, no riso oculto da carne. 
E a condição eterna de se ser a sombra, a casa, o bálsamo 
e a chaga.


Maria Jorgete Teixeira


quinta-feira, 2 de junho de 2016

Ato de Contrição

Pintura de Dorina Costras

Não me arrependo de meus erros:
nada mais que sofrimento e vida.
Não me arrependo de meus beijos:
deixaram um pouco de mim
em muitas bocas.
Não me arrependo de meus pensamentos:
eram belos como mulheres nuas.
Perdoai, Senhor, se alguma vez
não fui eu mesma.


Laís Corrêa de Araújo
Em "Caderno de poesia"



quarta-feira, 1 de junho de 2016


Arte de Dorina Costras

Era manhã e anoiteceu,
sem ter havido tarde nem meio-dia,
e tudo em volta envelheceu,
perdendo cor e poesia.

Mas tu chegaste e a tarde aconteceu
e voltei a ser eu.

Torquato da Luz


Interlúdio com ...

Will You Still Love Me Tomorrow - Norah Jones

Will You Still Love Me Tomorrow

Norah Jones

Tonight you're mine completely
You give your love so sweetly
Tonight the light of love is in your eyes
Will you still love me tomorrow?

Is this a lasting treasure
or just a moment pleasure?
Can I believe the magic of your sight?
Will you still love me tomorrow?

Tonight with words unspoken
You said that I'm the only one
But will my heart be broken
When the night meets the morning sun?

I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now cause I won't ask again
Will you still love me tomorrow?

Will you still love me tomorrow?
Will you still love me tomorrow?...

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