Estou de volta... como a primavera!

"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa..."

Manuel Antonio Pina

domingo, 26 de junho de 2016

Quase um poema primaveril


Imagem daqui

Pássaros, postilhões, quando
começares a cantar a carta
com o carimbo azul chegará, com selos
a desfazerem-se em flores com palavras
a serem lidas:

Nada
dura
para sempre

Reiner Kunze



O tempo, senhora

"Barco com Bandeirinhas e Pássaros", de Alfredo Volpi - 1955

O tempo, senhora, é este papel. 
Para os que souberam, como nós, sonhar a sua história,
nascerá sobre o branco o desenho de uma estrada:
o seu destino é um rio, ou um mar, ou um recomeço.
Na margem deste mapa dorme a praia
que guarda cada passo do que fomos ou vivemos.
Ali revejo o barco que percorre o meu papel,
e de papel é feito, como as nuvens e os pássaros
que escrevem o silêncio.
O tempo, agora, é este barco.
Os pássaros parecem pousados.
Por um instante se iluminam.
É outro dia.

W.B. Leal


Vestida de não


Desconheço a autoria da imagem

ficas melhor assim vestida de não,
ficas mais quieta na minha memória.
a solidão é deste modo: a coragem
de escrever sozinho o final da nossa história.
adiciono pontos finais ao final da nossa história:
estás quieta na minha memória, os ges...tos
sem cor, um enorme não cerceando a tua boca.
estás também nua. aproximo-me de ti com o que de mais
humano consigo invocar: ensina-me o final
da nossa história! ficas mais quieta vestida de não,
completamente nua na minha memória.
onde se desenha a tua sombra recolho
estes versos: quando traí a nossa história?

Rui Tinoco



Apetecimento

Pintura de Oleg Tchoubakov


Apetece-me fugir para dentro dos teus olhos. Apetece-me fugir para o longe que os teus olhos vislumbram. Como se fosse um sonho, uma viagem de infãncia, iremos os dois.
O tempo que não temos, a terra do nunca.
Nunca dizer que não a um desejo.
A uma vontade.
A um amor.
Nunca dizer não.

Amar-te assim, acima de todas as coisas.
Apetece-me.

Joaquim Paulo Nogueira


Morrer


Fotografia da Facepage Fabrica de Escrita

depois de me despedir
das palavras, uma a uma.
E no final,
descontada a lágrima,
restar uma única certeza:
não há morte
que baste
para se deixar de viver.

Mia Couto



Fotografia de Federico Bebber

Chegas a casa com as mãos
cheias de sacos e vincadas
pelo esforço. o silêncio é escuro
antes de acenderes a luz; depois
o silêncio é o mesmo, mas ilumina
a solidão nos objectos da casa. largas tudo
logo à entrada. acendes a luz fria da casa
de banho. pegas no elástico, agarras os
cabelos, escuros. e lavas o rosto. ele
vai ficando na água. até que o faças
escorrer pelo ralo: sem nenhum som.

Bruno Béu



Art by Prashant Nayak.

não ouso sequer perturbar a tua imobilidade
escuto com toda a clareza a metamorfose
que se desenrola em ti enquanto
te desamarras e rompes o rodeio

estremeces-me brutalmente
- és o único diamante que riscou a minha pele

Frederico Mira George



Só, silêncio e solidão, sempre


Imagem Google

Só,
só,
só,
só, sempre,
solidão, sempre, só,
só,
só,
só,
tão só, eu sempre,
silêncio e solidão, sempre,
só sempre,
eu tão só.

Alma Kodiak



Pintura de Rene Magritte - O Terapeuta

A gaiola esteve fechada por tanto tempo
que um pássaro nasceu lá dentro.

o pássaro ficou imóvel por tanto tempo
que a gaiola
corroída pelo silêncio,
se abriu.

o silêncio durou tanto
que por trás das barras negras
risos e mais risos ecoaram.

Tadeusz Rozewicz



Conheço a residência da dor


Imagem Pinterest

Conheço a residência da dor.
É um lugar afastado,
Sem vizinhos, sem conversa, quase sem lágrimas,
Com umas imensas vigílias diante do céu.

A dor não tem nome,
Não se chama, não atende.
Ela mesma é solidão:
Nada mostra, nada pede, não precisa.
Vem quando quer.

O rosto da dor está voltado sobre um espelho,
Mas não é rosto de corpo,
Nem o seu espelho é do mundo.

Conheço pessoalmente a dor.
A sua residência, longe,
Em caminhos inesperados.

Às vezes sento-me à sua porta, na sombra das suas árvores.
E ouço dizer:
"Quem visse, como vês, a dor, já não sofria".
E olho para ela, imensamente.
Conheço há muito tempo a dor.
Conheço-a de perto.
Pessoalmente.

Cecília Meireles


Interlúdio com ...

Will You Still Love Me Tomorrow - Norah Jones

Will You Still Love Me Tomorrow

Norah Jones

Tonight you're mine completely
You give your love so sweetly
Tonight the light of love is in your eyes
Will you still love me tomorrow?

Is this a lasting treasure
or just a moment pleasure?
Can I believe the magic of your sight?
Will you still love me tomorrow?

Tonight with words unspoken
You said that I'm the only one
But will my heart be broken
When the night meets the morning sun?

I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now cause I won't ask again
Will you still love me tomorrow?

Will you still love me tomorrow?
Will you still love me tomorrow?...

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