Estou de volta... como a primavera!

"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa..."

Manuel Antonio Pina

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Meu amor, meu amor



Arte de Talantbek Chilirov 

Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.

Meu limão de amargura meu punhal a escrever
nós paramos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.

Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento

este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.

José Carlos Ary dos Santos



Amostra sem valor



Cena da peça Esperando Godot, de Samuel Beckett

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,

Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

António Gedeão




Tentei fugir da mancha mais escura


Colagem de Lucia de Moura Chamma

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão …

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.

David Mourão-Ferreira



Se eu pudesse iluminar por dentro



Ilustração Ulrike Bobnz

Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias
para te dizer, com a simplicidade do bater do coração,
que afinal ao pé de ti apenas sinto as mãos mais frias
e esta ternura dos olhos que se dão.

Nem asas, nem estrelas, nem flores sem chão
- mas o desejo de ser a noite que me guia
e baixinho ao bafo da tua respiração
contar-te todas as minhas covardias.

Ao pé de ti não me apetece ser herói
mas abrir-te mais o abismo que me dói
nos cardos deste sol de morte viva.

Ser como sou e ver-te como és:
dois bichos de suor com sombra aos pés.
Complicações de luas e saliva

José Gomes Ferreira




terça-feira, 5 de novembro de 2019

Poema sobre o peito que sonhava filhos




Fotografia de Aaron Nace. no Flickr - "Staying"


para o josé félix duque

àquele homem saíam-lhe crianças do peito,
encostava-se de socorro ao muro e não dizia nada.
os meus olhos de infelicidade viam-nas partir,
mas um dia, contava, teria um filho, um filho que ficasse.
e as mulheres abeiravam-se dele
para lhe explicarem a maternidade e ele nada escutava.
porque, ao longe, as crianças do seu peito faziam travessuras parecidas
às dos filhos e, de tempos a tempos, uma delas vinha mais perto.
ele não resistia a sentir esperança.
já o coração falhava de tanto acreditar.
e as mulheres colocavam-se entre ele e os estranhos seres,
e o homem seguia o seu caminho entre as sombras como promessa de mãe.


valter hugo mãe


Soneto à tua volta



Imagem via Facepage Microcontos

Voltaste, meu amor... enfim voltaste!
Como fez frio aqui sem teu carinho.
A flor de outrora refloresce na haste
que pendia sem vida em meu caminho.

Obrigado... Eu vivia tão sozinho...
Que infinita alegria, e que contraste!
-Volta a antiga embriaguez porque voltaste
e é doce o amor, porque é mais velho o vinho!

Voltaste... E dou-te logo este poema
simples e humilde repetindo um tema
da alma humana esgotada e envelhecida...

Mil poetas outras voltas celebraram,
mas, que importa? – se tantas já voltaram
só tu voltaste para a minha vida...

J. G. de Araujo Jorge



A coruja




 Imagem via Pinterest

São todo ouvidos
os teus olhos
de vigília.

Olhos acesos,
luzeiros
de sabedoria.

Olhos atentos
à geografia
do dentro

És uma concha.

Um encorujado
caramujo.

Monja em voto de silêncio.

Sérgio de Castro Pinto
in Zôo Imaginário



Bolhas


Fotografia de Warren Photography, em Flickr

Olha a bolha d'água no galho!
Olha o orvalho!

Olha a bolha de vinho na rolha!
Olha a bolha!

Olha a bolha na mão
que trabalha!

Olha a bolha de sabão na ponta da palha:
brilha, espelha e se espalha.
Olha a bolha!

Olha a bolha que molha
a mão do menino:

A bolha da chuva da calha!

Cecília Meireles





Lavanda



Embracing the future, escultura de Thomas Blackshear

Macio, quente, protetor,
com perfume de lavanda,
era teu colo mãe!

Tudo na casa tinha aquele cheiro.
- É para ter sonhos liláses -
dizias, estendendo os lençóis.

E agora mãe, já velhinha,
teu cabelo tem além do perfume,
a cor da flor!

Lenise Marques


Um olhar amadurecido


arte de Kebba Sanneh

Meus olhos deixaram de ser estrelas
iluminando a negra noite,
quando você me escondeu o luar.

Deixaram de ser faróis na neblina
à procura do horizonte,
quando, sozinha, eu me coloquei a vagar.

Nem são mais contas reluzentes
adornando o seu despertar,
quando você fez nosso elo arrebentar.
Meus olhos estão amadurecidos,
porque foram esquecidos
pelo seu olhar.

Marise Ribeiro


Interlúdio com ...

Will You Still Love Me Tomorrow - Norah Jones

Will You Still Love Me Tomorrow

Norah Jones

Tonight you're mine completely
You give your love so sweetly
Tonight the light of love is in your eyes
Will you still love me tomorrow?

Is this a lasting treasure
or just a moment pleasure?
Can I believe the magic of your sight?
Will you still love me tomorrow?

Tonight with words unspoken
You said that I'm the only one
But will my heart be broken
When the night meets the morning sun?

I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now cause I won't ask again
Will you still love me tomorrow?

Will you still love me tomorrow?
Will you still love me tomorrow?...

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