Estou de volta... como a primavera!

"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa..."

Manuel Antonio Pina

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Solidões






 
 Arte de Toulouse Lautrec

Eles têm razão
essa felicidade
pelo menos com maiúscula
não existe

ah, mas se existisse com minúscula
seria semelhante à nossa breve
pré-solidão

depois da alegria vem a solidão
depois da plenitude vem a solidão
depois do amor vem a solidão

já sei que é uma pobre deformação
mas o certo é que nesse durável minuto
a gente se sente
só no mundo

sem posses
sem pretextos
sem abraços
sem rancores

sem as coisas que unem ou separam
e nesta única maneira de estar só

a gente sequer tem piedade de si mesmo
os dados objetivos são como segue

há dez centímetros de silêncio
entre tuas mãos e minhas mãos

uma fronteira de palavras não ditas
entre teus lábios e meus lábios

e algo que brilha um pouco triste
entre teus olhos e meus olhos

claro que a solidão não vem sozinha
se a gente olha por sobre o ombro seco
de nossas solidões
vê um longo e compacto impossível

um singelo respeito por terceiros ou quartos
esse percalço de ser boa gente

depois da alegria
depois da plenitude
depois do amor
vem a solidão

está certo
mas
o que virá depois
da solidão

às vezes não me sinto
tão só
se imagino
ou melhor se sei
que além da minha solidão
e da tua
ainda estás aí
mesmo que se perguntando sozinha
o que virá depois
da solidão.

Mário Benedetti





Daquilo que importa

 
Arte de Laura Makabresku

Não importa o prato na mesa,
se ele não te saciar a mais íntima
de todas as fomes.

Não importa a poesia,
se ela não te abrir as janelas da vida
todos os dias.

Não importa a ponte,
se ela só te levar
até o outro lado do rio.

Não importa a palavra,
se ela só te consolar
no meio da rua.

Não importa a vida,
se ela é só armadilha.

Ademir Antonio Bacca




Os girassóis




Arte de Maori Sakai
Às vezes ouves-me chorar
não é fácil deixar a tua mão

De quarto em quarto
quem espera
o terror de não haver ninguém

As paisagens alteram-se sem resolução
narrativas imortais desaparecem
e os girassóis assim
vulneráveis a desconhecidas ordens

Tu estás tão perto
mas sofro tanto
porque não vejo
como possa falar de ti
entre dois ou três séculos

José Tolentino Mendonça




Súmula


 
"Secret of the Rose", arte de Christian Schloe

(excerto)

Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas.
E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.'
 
Herberto Helder




Da condição humana



Arte de Salvador Dali

Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta.
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.
 
José Carlos Ary dos Santos
in ’Obra Poética’




segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Distância


Imagem da Web

no lado da cama que guardei a você 
pendurado
em duas voltas 
um rosário de pérola com a cruz
voltada para a frente: 
se existe mesmo proteção
que te guarde primeiro e que te salve em dobro
deixo três travesseiros em linha reta 
ensaiando
o volume do seu corpo sob a coberta de flanela
antecipo nosso jeito de dormir 
mantenho fresca
e cheia a garrafa d’água 
o abajur com luz acesa
a janela entreaberta para ouvirmos 
os carros de som com promoções de supermercado
o preço do fubá ecoando em meu bairro 
um isqueiro no criado-mudo 
junto de um quartzo rosa lapidado
que é quando eu não acredito em uma ou outra
conta do rosário 
em meu lado suspiro a espera
tateio a noite representada em seu devido lugar
preservando o templo com a quentura das mãos

Amanda Vital



Canção


 
Arte por Hiroko Sakai

Qual canção
cantaremos
para o nosso coração,
no meio da noite
do deserto
que repousa
em nós?

Qual canção
quererá
o nosso coração
ouvir
quando
o mistério
de seu pulsar
apontar os seus
últimos
acordes?

Qual canção
nos levará
ao mistério
da existência e
ao incognoscível
da morte?

Qual canção
nos oferecerá
o nosso raro destino
dentre as limitações
do ventre
da Terra?

William Soares dos Santos



E Dylan tocava gaita



Bob Dylan Poster, Mr. Tambourine Man, Blowing in the Mind

e dylan tocava gaita

quando o medo criou raízes
e me plantou em casa
me nocauteando com suas mãos frias
tinha um anjo bêbado de asas negras
no sofá branco da sala

ele sorria e ouvia dylan
entendia cada palavra
me oferecia uísque de terras geladas
e eu ali estátua branca parada

o anjo bêbado de asas negras
perdido em seus caminhos
parou ali em minha casa
e ouvia dylan de olhos fechados
no sofá branco da sala

quando o medo criou raízes
fiquei debaixo de suas asas negras
dylan tocava gaita
e por um instante nesse instante
os sonhos não tinham medo

Adriana Godoy



Haikai






 Arte de René Magritte

O dia todo usando
Um chapéu que não estava
Em minha cabeça

Jack Kerouac





Semeio sóis

 
Arte by Jacques Guignard

Semeio sóis
e sons
na terra viva

afundo os
pés
no chão: semeio e
passo.

Não me importa a colheita.


Orides Fontela







Interlúdio com ...

Will You Still Love Me Tomorrow - Norah Jones

Will You Still Love Me Tomorrow

Norah Jones

Tonight you're mine completely
You give your love so sweetly
Tonight the light of love is in your eyes
Will you still love me tomorrow?

Is this a lasting treasure
or just a moment pleasure?
Can I believe the magic of your sight?
Will you still love me tomorrow?

Tonight with words unspoken
You said that I'm the only one
But will my heart be broken
When the night meets the morning sun?

I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now cause I won't ask again
Will you still love me tomorrow?

Will you still love me tomorrow?
Will you still love me tomorrow?...

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