Estou de volta... como a primavera!

"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa..."

Manuel Antonio Pina

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Tal como qualquer cidade também nós escondemos

  
Fotografia de Eric Bénier Bürckel

Tal como qualquer cidade
também nós escondemos
turvos itinerários, edifícios arruinados,
escuras vielas de rancor ou desejo,
arrabaldes de medo ou parques para o amor,
cantos em penumbra onde ocultar segredos,
praças que nunca visitamos
e aborrecidos museus onde expor lembranças
que não interessam a ninguém.
A nós
também nos habitam cidadãos terríveis:
funcionários do tédio,
mensageiros de moto levando para muito longe
o pequeno embrulho — primoroso e com laço —
dos remorsos.
Viajantes que passam por nós
com as suas malas a caminho de outros corpos
e sobretudo
transeuntes alheios à nossa própria vontade,
incivis e teimosos;
têm nomes ridículos
tal como os sentimentos amor, rancor ou medo
e especulam — como vulgares comerciantes —
com o preço
por metro quadrado do nosso coração.

Sílvia Ugidos


História de amor



 Imagem via Pinterest

A pena para a deserção
É morte por um pelotão de execução
Poupo-te esse trabalho
junto envio uma pistola.
Carregada com apenas uma bala.
Aperta o gatilho uma vez.
Talvez nada aconteça.
Mas aperta uma segunda vez…
uma terceira…
Vês
Eu sei os jogos que tu gostas

Jim Carroll
traduçao de Maria Sousa


Algumas pessoas vendem o seu sangue

 
 Figura de porcelana by Jessica Harrison  

Algumas pessoas vendem o seu sangue. Tu vendes o teu coração.
Era isso ou a alma.
A parte difícil é tirar a maldita coisa para fora.
Uma espécie de torção. Como abrir uma ostra,
a tua espinha, um pulso,
e depois, upa! Está na tua boca.
Viras-te parcialmente do avesso
como uma anêmona do mar a cuspir um seixo.
Há um “plop” quebrado, o som
de vísceras de peixe a cair num balde.
E ali está, um enorme coágulo vermelho escuro
do passado ainda-vivo, a cintilar inteiro no prato.
Vai passando de mão em mão. É escorregadio. É deixado cair.
Mas também degustado. Muito grosseiro, diz um. Muito salgado.
Muito amargo, diz outro, fazendo uma cara.
Cada um é um gourmet instantâneo,
e tu ficas a ouvir isto tudo
a um canto, como um empregado de mesa recém-contratado,
a tua mão tímida e habilidosa na ferida escondida
no fundo da camisa e peito,
timidamente, sem coração.

Margaret Atwood
(tradução Maria Sousa)



Escrevias pela noite afora


 
 Imagem via Pinterest 

(excerto)
Queria prender-te, tornar a perder-te, achar-te
assim por acaso no meu dia livre a meio
da semana. Mantêm-se as causas iguais
das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina
dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono
custa. Porque estou contigo e me deixas
a tua imagem passa pelas noites sem sono,
está aqui a cadeira em que te sentaste
a escrever lendo. Pudesse eu propor-te
vida menos igual, outras iguais obrigações.
Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal.

Hélder Moura Pereira
in De Novo as Sombras e as Calmas




Sobremesa

 
 Fotografia de Anderson Crepaldi

Quando a melancolia enche o sol, o esvazia do
seu brilho, faz baço o amarelo do rebordo, apaga
os fios de fogo que da sua esfera fulgem, pego
nele e ponho-o na travessa do bolo. Com a faca,
corto-o; e ofereço-te
uma fatia de sol, que levas à boca; e ele volta a brilhar,
iluminando-te os lábios, os olhos,
o rosto. Então, beijo-te: e é como se
tocasse o sol; como se a sua chama me queimasse,
sem doer, ou como se a sua luz entrasse por dentro
de mim, quando a sobremesa
chega ao fim.

Nuno Júdice
em Por dentro do fruto a chuva




segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Olha, as coisas estão cortadas ao meio

 

Arte de Agnolo Bronzino

Olha, as coisas
Estão cortadas ao meio,
De um lado elas
Do outro o seu nome.

Há um vasto espaço entre elas,
Espaço para correr,
Para a vida.

Olha, tu estás cortado ao meio.
De um lado tu,
Do outro o teu nome.

Não sentes às vezes ou no sonho
Ou à margem do sonho,
Que na tua fronte
Assentam outros pensamentos,
Sobre as tuas mãos
Outras mãos?

Só por um instante foste compreendido
Fazendo o teu nome
Atravessar o teu corpo,
De um modo sonoro e doloroso,
Como o badalo de bronze
Através do vazio do sino.

Marin Sorescu

 


Hoje o que nos convém




Fotografia daqui
 
Hoje o que nos convém
é uma certa escuridão
inventada de raiz.

Talvez seja o nosso prêmio,
a meio do caminho, depois
de tantos sobressaltos.

Deixamos entrar no quarto
as mais modestas canções:
quem de dentro de si não sai
vai morrer sem amar ninguém.

Antes uma ameaça, agora
uma simples explicação.
 
Rui Pires Cabral


 

Volta até mim no silêncio da noite

 
Imagem da Web

Volta até mim no silêncio da noite
a tua voz que eu amo, e as tuas palavras
que eu não esqueço. Volta até mim
para que a tua ausência não embacie
o vidro da memória, nem o transforme
no espelho baço dos meus olhos. Volta
com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário
vestido com a mortalha da névoa; e traz
contigo a maré cheia da manhã com que
todos os náufragos sonharam.

Nuno Júdice




Solidões






 
 Arte de Toulouse Lautrec

Eles têm razão
essa felicidade
pelo menos com maiúscula
não existe

ah, mas se existisse com minúscula
seria semelhante à nossa breve
pré-solidão

depois da alegria vem a solidão
depois da plenitude vem a solidão
depois do amor vem a solidão

já sei que é uma pobre deformação
mas o certo é que nesse durável minuto
a gente se sente
só no mundo

sem posses
sem pretextos
sem abraços
sem rancores

sem as coisas que unem ou separam
e nesta única maneira de estar só

a gente sequer tem piedade de si mesmo
os dados objetivos são como segue

há dez centímetros de silêncio
entre tuas mãos e minhas mãos

uma fronteira de palavras não ditas
entre teus lábios e meus lábios

e algo que brilha um pouco triste
entre teus olhos e meus olhos

claro que a solidão não vem sozinha
se a gente olha por sobre o ombro seco
de nossas solidões
vê um longo e compacto impossível

um singelo respeito por terceiros ou quartos
esse percalço de ser boa gente

depois da alegria
depois da plenitude
depois do amor
vem a solidão

está certo
mas
o que virá depois
da solidão

às vezes não me sinto
tão só
se imagino
ou melhor se sei
que além da minha solidão
e da tua
ainda estás aí
mesmo que se perguntando sozinha
o que virá depois
da solidão.

Mário Benedetti





Daquilo que importa

 
Arte de Laura Makabresku

Não importa o prato na mesa,
se ele não te saciar a mais íntima
de todas as fomes.

Não importa a poesia,
se ela não te abrir as janelas da vida
todos os dias.

Não importa a ponte,
se ela só te levar
até o outro lado do rio.

Não importa a palavra,
se ela só te consolar
no meio da rua.

Não importa a vida,
se ela é só armadilha.

Ademir Antonio Bacca




Interlúdio com ...

Will You Still Love Me Tomorrow - Norah Jones

Will You Still Love Me Tomorrow

Norah Jones

Tonight you're mine completely
You give your love so sweetly
Tonight the light of love is in your eyes
Will you still love me tomorrow?

Is this a lasting treasure
or just a moment pleasure?
Can I believe the magic of your sight?
Will you still love me tomorrow?

Tonight with words unspoken
You said that I'm the only one
But will my heart be broken
When the night meets the morning sun?

I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now cause I won't ask again
Will you still love me tomorrow?

Will you still love me tomorrow?
Will you still love me tomorrow?...

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