Estou de volta... como a primavera!

"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa..."

Manuel Antonio Pina

segunda-feira, 2 de março de 2020

Vou buscar-te ao fim da tarde


 
Ilustração Jun Kamaori

Vou buscar-te ao fim da tarde,
porque a noite só escurece contigo ao
meu lado, porque a noite aprende por ti
o caminho aberto das estrelas

Vou buscar-te ao fim da tarde,
e verás como preparei a casa, como
escolhi a música, como, enfim, espalhei
os objetos mais impressionados contigo,
os que ganharam vida por se interporem
na espessura estreita que vai do meu
ao teu coração

E não mais te devolvo, correndo todos os
riscos de não amanhecer nunca
numa loucura propositada por ti

Não mais te devolvo,
ocuparás o mundo debaixo e sobre mim,
e não haverá mais mundo sem que seja assim.
Valter Hugo Mãe






Oferenda



Arte de Agata Pospieszynska
 
Eu falo da profundidade da noite,
da escuridão abissal.

Se vieres a minha casa, amor,
traz-me luz.
E uma janela para que eu possa ver
a felicidade daquela rua repleta.

Forugh Farrokhzad






Coração cheio ou vazio em dor

 
Fotografia de Guy Bourdin

Agora que tens uma casa cheia de gatos,
um armário cheio de vestidos
outro cheio de sapatos,
uma caixa cheia de joias brilhantes e coloridas
e outra cheia de comprimidos também brilhantes e coloridos.

Depois de uma vida cheia de cupidos,
pergunto se tiveste um vida cheia,
a quantos chamaste meu amor,
querendo dizer “meu”, dizer “amor”,
se tens o coração cheio ou vazio em dor.
 
Raquel Serejo Martins




O discreto beija-flor


 Fotografia Cristina Siqueira 

No verso da folha larga
fez seu ninho
pequenino
para dois beija- florzinhos
uma caminha de fios
bem trançados
com os voos do caminho

A folha serve de abrigo
engenhoso telhadinho

Coisa mais linda de ver
O encanto passarinho

Cristina Siqueira




Teorema


Gettyimages 

Alguma coisa saiu errada
na minha Matemática.
Não sei se foi excesso de poesia,
dose demais de fantasia,
ou simplesmente falta de prática.
Tenho certeza que somei,
multipliquei pra dividir
em partes justamente desiguais.
Subtraí só de mim,
pra que pudesse lhe caber um tanto a mais.
Quando chego ao final da operação,
não consigo decifrar o que ocorreu.
A soma partiu , saiu devedora.
O resultado : noves fora, eu.


Flora Figueiredo 
in  "Amor a céu aberto"




Nenhum de nós passeia impune

 
 Desconheço a autoria da imagem

Nenhum de nós passeia impune
pelos retratos: fazem-nos doer
os recessos da memória.

Deles saltam, por vezes, sustos,
primeiras noites, secreta
loucura, lábios que foram.

Interditam-nos sempre.
Trepam-nos pelo torpor
mais desprevenido, subsistem.

A sua perenidade é volátil
e cheia de venenosos ardis.
Um sopro no oceano.

Distintos, os seus contornos
não são nunca
os que supomos.
 
Eduardo Pitta




Quando amanhece


Arte: Daniele Deriu 

Quando amanhece penso:
Encontro-te no vento
virás abraçar-me como os ramos da árvore
e chegaremos ao coração da cidade

Ao meio-dia sei:
A distância do meu corpo ao teu grito
corresponde à do teu sopro ao meu ouvido
eis a anatomia do silêncio

De tarde fico exausta:
Circulo pelas ruas e roço-me nas praças

À noite adormecemos:
Será que te lembras? será que me lembro?

Amanhã alegro-me de novo:
Imagino a floresta, parto o espelho
e recomeço a ir ao teu encontro.'
 
Teresa Balté



 

Anímico



Fotografia Dalva Nascimento

Nasceu no meu jardim um pé de mato
que dá flor amarela.
Toda manhã vou lá pra escutar a zoeira
da insetaria em festa.
Tem zoado de todo jeito:
tem do grosso, do fino, de aprendiz e de mestre.
É pata, é asa, é boca, é bico,
é grão de poeira e pólen na fogueira do sol.
Parece que a arvorinha conversa.

Adélia Prado




Tínhamos os olhos muito abertos


Arte de Pamela Dzaet Hill

Tínhamos os olhos muito abertos.
Queimávamos madrugadas de fio a pavio
e as aves desmanteladas que te dava para consertares
conheciam sempre finais felizes.

Foram noites gigantes
a olhar pelo buraco da agulha
e a imaginar que do outro lado chegavam as mãos
e as bocas e os peitos.

Ocupámos a casa inteira
e suturamos lentamente o coração.
Agora estou dentro do sono.

Um barco encalhado assinala esta tragédia
e já não sei como convocar os ventos e as marés.
As noites passam lentas e perseguem-me
como animais ainda por nomear.
 
Leonor Castro Nunes




domingo, 1 de março de 2020

Diz-me por favor onde não estás


Arte de Jeff Burton 

Diz-me por favor onde não estás
em qual lugar posso não te ver,
onde posso dormir sem te lembrar
e onde relembrar sem que me doa.

Diz-me por favor onde posso caminhar
sem encontrar as tuas pegadas,
onde posso correr sem que te veja
e onde descansar com a minha tristeza.

Diz-me por favor qual é o céu
que não tem o calor do teu olhar
e qual é o sol que tem luz apenas
e não a sensação de que me chamas.

Diz-me por favor qual é o lugar
em que não deixaste a tua presença.
Diz-me por favor onde no meu travesseiro
não tem escondida uma lembrança tua.

Diz-me por favor qual é a noite
em que não virás velar meus sonhos.
Que não posso viver porque te espero
e não posso morrer porque te amo.
 
Gustavo Alejandro Castiñeiras




Interlúdio com ...

Will You Still Love Me Tomorrow - Norah Jones

Will You Still Love Me Tomorrow

Norah Jones

Tonight you're mine completely
You give your love so sweetly
Tonight the light of love is in your eyes
Will you still love me tomorrow?

Is this a lasting treasure
or just a moment pleasure?
Can I believe the magic of your sight?
Will you still love me tomorrow?

Tonight with words unspoken
You said that I'm the only one
But will my heart be broken
When the night meets the morning sun?

I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now cause I won't ask again
Will you still love me tomorrow?

Will you still love me tomorrow?
Will you still love me tomorrow?...

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