Estou de volta... como a primavera!

"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa..."

Manuel Antonio Pina

sábado, 21 de setembro de 2019

Poema de amor


Fotografia de Greta Larosa
 
 
Ouve-me com teus olhos
Porque minha queixa é muda.
Acaricia-me com teu pensamento
Porque meu corpo está imóvel.
Beija-me com tuas mãos
Porque minha boca te espera.
Fala-me com o silêncio dos momentos de amor
Porque os ouvidos da minha vida
Se abrirão como as flores
 
Na úmida e infinita madrugada.

Adalgisa Nery
 no livro "Mundos Oscilantes"




E de novo a armadilha dos abraços



 "Sheltered", fotografia de Kurt Van Wagner

E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada (*) no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos.


Rosa Lobato Faria



(*)adjetivo
1.
colocada no alcândor ('cume'); situado em ponto alto, elevado.
"um castelo a... no monte"
2.
figurado (sentido)
que se exaltou ou sublimou.





Comas palavras te abraço




 "Lovers", fotografia de Kurt VanWagner

Com as palavras te abraço. Com
as palavras te dispo. Com as palavras
te beijo. Com as palavras te escrevo.
Com as palavras subo o dia, sei do sangue, sonho
o tempo. Com palavras falo, com palavras penso,
com palavras sinto. Com as palavras canto.
Com elas me acalmo. E me enfureço. E me culpo
e absolvo. Com palavras me recordo. Por todas elas
me esqueço. E me sei, e me dou, e me doo. Com
as palavras me deito. E amanheço. E a todas
agradeço. De todas me despeço.
A todas reconheço.

Por elas sou o ponto de partida
e também caminho de regresso.

Joaquim Pessoa






Fotografia de Claudia Regina

É preciso amar o inútil.
Criar pombos sem pensar em comê-los, 
plantar roseiras sem pensar em colher rosas, 
escrever sem pensar em publicar, 
fazer coisas assim, sem esperar nada em troca.
A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, 
mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas da vida.
A música. Este céu que nem promete chuva.
Aquela estrelinha nascendo ali... está vendo aquela estrelinha?
Há milênios não tem feito nada, não guiou os reis magos,
nem os pastores, nem os marinheiros perdidos... apenas brilha. 
Ninguém repara nela porque é uma estrela inútil. 
Pois é preciso amar o inútil porque no inútil está a beleza.

Lygia Fagundes Telles



A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e área interna
Imagem: Pinterest

Vem ver-me antes que morra de amor - o sangue
arrefece dentro do meu corpo e as rosas desbotam
nas minhas mãos. Da minha cama ouço a tempestade
nos continentes; e já quis partir, deixar que o vento
levasse a minha mala por aí; fiz planos de correr mundo
para te esquecer - mas nunca abria a porta.

Vem ver-me enquanto não morro, mas vem de noite - 
a luz sublinha a agonia de um rosto e quero que me recordes
como eu podia ter sido. Da minha cama vejo o sol
tatuar as costas do meu país; e já sonhei que o perseguia,
que desenhava o teu nome no veludo da areia e sentia
a vida pulsar nessa palavra como o músculo tenso
escondido sob a pele - mas depois acordava e não ia.

Vem ver-me antes que morra, mas vem depressa -
os livros resvalam-me do colo e o bolor avança
sobre a roupa. Da minha cama sinto o perfume das folhas
tombadas nos caminhos. O Outono chegou. E o quarto
ficou tão frio de repente. E tu sem vires. Agora
quero deitar-me no tapete de musgo do jardim e ouvir
bater o coração da terra no meu peito. Os vermes
alimentam-se dos sonhos de quem morre. E tu não vens.

Maria do Rosário Pedreira
Canto do Vento nos Ciprestes
(2001)


quarta-feira, 17 de julho de 2019


arte digital de Joe Webb

Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem 
as imagens?

Preciso habituar-me 
a substituir-te 
pelo vento, 
que está em toda a parte 
e cuja direção 
é igualmente passageira 
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos 
numa casa deserta, 
ao trémulo vigor de todos os teus gestos 
invisíveis, 
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve 
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens. 
As imagens não dão 
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te, 
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te, 
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens 
assim como posso 
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que 
isso não seja ser feliz.

Raul de Carvalho



Poema do fanático


Imagem via facepage Secret Place

Não bebo álcool, não tomo ópio nem éter,
Sou o embriagado de ti e por ti.
Mil dedos me apontam na rua:
Eis o homem que é fanático por uma mulher.

Tua ternura e tua crueldade são iguais diante de mim
Porque eu amo tudo o que vem de ti.
Amo-te na tua miséria e na tua glória
E te amaria mais ainda se sofresses muito mais.

Caíste em fogo na minha vida de rebelado.
Sou insensível ao tempo - porque tu existes.
Eu sou fanático da tua pessoa,
Da tua graça, do teu espírito, do aparelhamento da tua vida.
Eu quisera formar uma unidade contigo
E me extinguir violentamente contigo na febre da minha, da tua, da nossa poesia.

Murilo Mendes



sábado, 6 de julho de 2019


Arte: Kim Schuessler

A minha alegria é um aroma de tangerina nos dedos,
comer aos gomos a paisagem
e limpar depois
a boca
à manga do espanto.
Tu puxas-me
e somos duas crianças 
num trilho de mata,
num banco de pedra,
num portão verde dividindo

o aqui e o ali.
Porque nós estamos aqui.
Aqui onde te entrego os meus bolsos,
e - repara - as tuas mãos cabem.

Nós estamos aqui.

Vasco Gato 



Ouve, tu


Arte: Sergii Shaulis

Ouve, tu que não existes em nenhum céu:

Estou farto de escavar nos olhos
abismos de ternura
onde cabem todos menos eu.

Estou farto de palavras de perdão
que me ferem a boca
dum frio de lágrimas quentes de punhal.

Estou farto desta dor inútil
de chorar por mim nos outros.

- Eu que nem sequer tenho a coragem de escrever
os versos que me fazem doer.

José Gomes Ferreira



Arte: Dick Pieters

Espera-me e eu voltarei,
mas espera-me muito.
Espera-me quando cair a neve
e chegarem as chuvas tristes,
quando chegar o calor,
não deixes de esperar.
Espera-me, quando já
ninguém esperar e se tiver
esquecido já o ontem.
Espera-me mesmo que as cartas
não cheguem de longe.
Espera-me quando todos
estiverem já fartos de esperar.
Espera-me e eu voltarei,
não ames – peço-te –
quem repetir de memória
que é tempo já de olvidar;
mesmo que mãe e filho julguem
que eu não existo mais.
Deixa que os amigos, ao lume,
se cansem de esperar e bebam
vinho amargo em memória de mim.
Espera-me e não
te apresses a beber com eles.
Espera-me e eu voltarei,
para que a morte se encha de raiva.
O que nunca me esquecer
dirá talvez de mim: coitado, teve sorte.
Jamais compreenderão
aqueles que jamais esperaram.
Tu é que me salvaste do fogo.
De como sobrevivi
saberemos tu e eu,
porque simplesmente me esperaste,
como ninguém me esperou.

Konstantin Simonov



Interlúdio com ...

Will You Still Love Me Tomorrow - Norah Jones

Will You Still Love Me Tomorrow

Norah Jones

Tonight you're mine completely
You give your love so sweetly
Tonight the light of love is in your eyes
Will you still love me tomorrow?

Is this a lasting treasure
or just a moment pleasure?
Can I believe the magic of your sight?
Will you still love me tomorrow?

Tonight with words unspoken
You said that I'm the only one
But will my heart be broken
When the night meets the morning sun?

I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now cause I won't ask again
Will you still love me tomorrow?

Will you still love me tomorrow?
Will you still love me tomorrow?...

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