Estou de volta... como a primavera!

"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa..."

Manuel Antonio Pina

quarta-feira, 4 de março de 2020

Quem é esta clandestina

 
 Arte de Osott

Quem é esta clandestina
que dentro de mim viaja

e de mim não se separa
mesmo quando estou dormindo

e aparece nos meus sonhos
breve e leve como a neve?

Quem é esta clandestina
doce e branca e feminina

que me segue quando saio
sombra em mim dissimulada

e torna a voltar comigo
colada ao cair da tarde?

Quem é esta clandestina
que de mim não desembarca?

Sou seu trem ou seu navio?
Seu barco ou seu avião?

E sua voz me responde:
- És meu berço e meu jazigo.

Antes mesmo de nasceres
eu já estava contigo.

E sempre estarei em ti
até o fim da viagem.

Ledo Ivo



 
 


Infinita conversa com as nuvens


Imagem da Web
 
Antes de partir para as montanhas espalharei os
poemas pelo chão como quem abre um mapa pela
última vez. Como quem relembra o extenso areal dos
dias, a incansável rotina dos comboios, a infinita
conversa com as nuvens.

Quando partir para as montanhas deixarei os poemas
pelo chão como quem renega todos os mapas. Levarei
apenas o meu corpo para que ele me fale do teu.

Rui Miguel Fragas 
in "O Nome das Árvores", Poética Edições, 2014




Há um silêncio iluminado


Fotografia em Elen Star @tumblr

(excerto)
...
E digo-te que um dia nada nos afastará,
nem as cidades nem as palavras do amor.
Um dia todas as casas serão a nossa casa.
Aprenderemos então a ciência simples do tempo

eu guardarei os labirintos no novelo da noite
e tu adormecerás ao meu lado,
neste chão antigo, no súbito lugar da ternura.

Rui Miguel Fragas




Já voa a flor magra


Fotografia de Ted Watson

Não saberei nada da minha vida,
obscuro monótono sangue.

Não saberei quem eu amava, quem amo,
agora que curvado, reduzido aos meus membros,
no ruinoso vento de março
enumero os males dos dias decifrados.

Já voa a flor magra
dos ramos. E eu espero
a paciência de seu voo irrevogável.
 
Salvatore Quasimodo



 



Continuo apaixonada

 

Arte: "Stellarscapes" by Oriol Angrill Jordà

Não sei bem se continuo apaixonado,
não sei bem se vale a pena
continuar apaixonado por ti.
Não sei. Vejo-te e todo eu tremo.
Todo o meu corpo é um lamento,
e pede socorro ao teu olhar,
às tuas mãos.
A um simples sorriso.
Uma palavra que me descanse.

Al Berto








E o amor olhou para o tempo e riu


Watercolor art and design by Catherine Holcombe  

E o amor olhou para o tempo e riu,
porque sabia que não precisava dele.
Fingiu morrer por um dia,
e de reflorescer à noite,
sem leis para respeitar.
Adormeceu num canto de coração
por um tempo que não existia.
Fugiu sem se afastar,
voltou sem ter partido,
o tempo morria, e ele ficava.
 
Luigi Pirandello




O último crime da mala


Arte de Victor Nizovtsev

Na mala que nem o Anjo da Guarda,
Nem o Delegado do Distrito,
Nem eu mesmo consigo encontrar,
Está a minha imagem única, fechada a chave-
E a chave caída no fundo do mar!
Não adianta chamar escafandros,
Nem homens-rãs,
Nem a sereia mais querida,
Nem os atenciosos hipocampos, de que adianta?!
Não existem vestígios de mim.

Mário Quintana



 
 

A tudo me entreguei como se fosse para durar

 
Arte de Natalia Drepina

A tudo me entreguei
como se fosse para durar.
Com cada pessoa
cada casa
cada cidade
assinei um contrato
escrito sobre a pele.

Para dizer adeus
tive que arrancar
as cláusulas
uma a uma.
Assim sempre
uma vez e outra.
Com cada pessoa
cada casa
cada cidade.

As letras pequenas
mal se veem
entre as cicatrizes.

Ana Pérez Cañamares





Como lobos em períodos de seca



 Colagem Marco Paulo Alvim

Como lobos em períodos de seca
crescemos por toda a parte
amamos a chuva
amamos o outono
um dia até pensamos
em enviar uma carta de agradecimento ao céu
com uma folha de outono como selo de correio
acreditávamos que as montanhas desapareceriam
os mares se dissipariam
apenas o amor seria eterno

de súbito separamo-nos

ela gostava de sofás compridos
e eu de longos navios
ela gostava de sussurrar e suspirar nos cafés
eu gostava de saltar e gritar nas ruas
e, apesar de tudo,
os meus braços vastos como o universo
estão à espera dela.

Muhammad Al-Maghut



terça-feira, 3 de março de 2020

Vista do crepúsculo no final do século


Imagem Pinterest

Está envenenada a terra que nos enterra ou desterra.
Já não há ar, só desar.
Já não há chuva, só chuva ácida.
Vista do crepúsculo no final do século

Já não há parques, só parkings.
Já não há sociedades, só sociedades anônimas.
Empresas em lugar de nações.
Consumidores em lugar de cidadãos.
Aglomerações em lugar de cidades.
Não há pessoas. Só públicos.
Não há visões. Só televisões.
Para elogiar uma flor, diz-se: "parece de plástico".

Eduardo Galeano




Interlúdio com ...

Will You Still Love Me Tomorrow - Norah Jones

Will You Still Love Me Tomorrow

Norah Jones

Tonight you're mine completely
You give your love so sweetly
Tonight the light of love is in your eyes
Will you still love me tomorrow?

Is this a lasting treasure
or just a moment pleasure?
Can I believe the magic of your sight?
Will you still love me tomorrow?

Tonight with words unspoken
You said that I'm the only one
But will my heart be broken
When the night meets the morning sun?

I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now cause I won't ask again
Will you still love me tomorrow?

Will you still love me tomorrow?
Will you still love me tomorrow?...

Postagens populares

Total de visualizações de página