Estou de volta... como a primavera!

"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa..."

Manuel Antonio Pina

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Jogue os dados

Rita Hayworth e Glenn Ford, no filme "Gilda"

se você for tentar,
vá até o fim.
não existe nenhuma outra sensação
parecida.
você ficará a sós com os
deuses
e as noites se farão em chamas com o
fogo.
faça, faça, faça.
faça.
até o fim
até o fim.
você conduzirá a vida direto à
risada perfeita, é
a única batalha
pela qual vale a pena lutar.

Charles Bukowski




Sutura mínima

Arte conceitual de Dan Cretu

Inspiro através da máscara
bandagem de um algodão
parco, quase roto
tão antigo
a desfazer-se entre dedos

Assim como meu corpo
nu e imperfeito
a casear-se entre remendos

Lucia De Moura Chamma





Mesmo muito tempo após a minha morte



Escultura "O Impossível", de Maria Martins e "Étant Donnés", de Marcel Duchamp

Mesmo muito tempo após a minha morte
Muito tempo após a tua morte
Quero te torturar.
Como uma serpente de fogo,
quero que o meu pensamento
enrole-se no teu corpo sem queimar.

Quero te ver perdido,
asfixiado, perambulando
pela névoa sombria dos meus desejos.

Para ti, desejo longas noites insones,
repletas do tamborilar estridente de tempestades
distantes, invisíveis, desconhecidas.

E no fim, quero que te paralise
toda a nostalgia da minha presença.

Maria Martins
(escultora brasileira, paixão e amante de Marcel Duchamp,
escreveu esse poema por volta de 1945.)




Poema XXI

Fotografia de Pillery Teesalu "Imperfect Reflection"

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...

Alberto Caieiro
in "O Guardador de Rebanhos"




 

Três coisas


Imagem via Pinterest

Não consigo entender
O tempo
A morte
Teu olhar

O tempo é muito comprido
A morte não tem sentido
Teu olhar me põe perdido

Não consigo medir
O tempo
A morte
Teu olhar

O tempo, quando é que cessa?
A morte, quando começa?
Teu olhar, quando se expressa?

Muito medo tenho
Do tempo
Da morte
De teu olhar

O tempo levanta o muro.
A morte será o escuro?
Em teu olhar me procuro.

Paulo Mendes Campos




Eu durmo comigo



"Cymon e Iphigenia" (detalhe) -  arte de Frederic Leighton

Eu durmo comigo
deitada de bruços eu durmo comigo
virada prá direita eu durmo comigo

Eu durmo comigo abraçada comigo
não há noite tão longa em que
não durma comigo
como um trovador agarrado ao alaúde
eu durmo comigo

Eu durmo comigo
debaixo da noite estrelada
eu durmo comigo
enquanto os outros fazem aniversário

Eu durmo comigo às vezes de óculos
e mesmo no escuro sei que
estou dormindo comigo
e quem quiser dormir comigo
vai ter que dormir ao lado.

Angélica Freitas
in Um Útero é do Tamanho de Um Punho



quinta-feira, 30 de julho de 2020

Quarto de costura

Fotografia de Muga Miyahara

Minha mãe me ensinou a costurar
meu pai me ensinou a escrever,
escrevo as costuras dela
e costuro as palavras dele.
Costuro na máquina de escrever
escrevo na máquina de costura
cada babado e vírgula,
cada bainha e dois pontos
franzidos ou nervurados.
Minha caixa de linhas é colorida
minha memória é de ponto de sombra,
atrás, cheio de histórias.
Escrevendo costuro cada ponto e desponto,
costurando escrevo minha roupa
e minha lembrança,
vivendo me lembro das palavras do meu pai
e das mãos da minha mãe.
Sendo sou matiz bordado
no entremeio dos meus pais.

Wania Amarante
in Quarto de Costura



Ah se pelo menos eu te amasse menos

Arte de Anita Burnaz

Ah se pelo menos
eu te amasse menos
tudo era ais fácil
os dias mais amenos
folhas de dentro do alface

mas não
tinha que ser entre nós
esse fogo
esse ferro
essa pedreira
extremos
chamando extremos na distância

Paulo Leminski
in Toda Poesia



Plano de evasão

Arte de Gabriel Isack

Que mais podemos fazer?
Este amor é um país cansado

que não nos deixa mudar.
O medo cerca as fronteiras

e a capital é Nenhures
cidade de perdulários

e pequenas ruas tortas
onde vem morrer a noite -

aqui estamos ambos sós,
desunidos, extraviados,

não há táxis na praceta
nem cinzeiros nos cafés

e perdemos os amigos
entre as curvas de um enredo

que deixamos de seguir.
Mas não era nada disto

o que tinha na cabeça
ao começar a escrever:

os versos chamam o escuro,
abrem os portões ao frio

e eu quero estar nas colinas
do outro lado do rio.

Rui Pires Cabral
in Ladrador




Coqueiral

Imagem da Web

A saudade é um batimento que rebenta assim
vinte e oito vezes desde meu ombro tatuado
de desastre até a rosa pendurada em sua boca

E o amor, neste caso específico, é um mergulho
destemido que deriva quase sempre de uma nota
climática apenas para convergir no osso frontal
do crânio do rei da ilusão - terno é o seu rosto

Senhor, os ossinhos do mundo são de mel e ouro.

Matilde Campilho
in Jóquei



Interlúdio com ...

Will You Still Love Me Tomorrow - Norah Jones

Will You Still Love Me Tomorrow

Norah Jones

Tonight you're mine completely
You give your love so sweetly
Tonight the light of love is in your eyes
Will you still love me tomorrow?

Is this a lasting treasure
or just a moment pleasure?
Can I believe the magic of your sight?
Will you still love me tomorrow?

Tonight with words unspoken
You said that I'm the only one
But will my heart be broken
When the night meets the morning sun?

I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now cause I won't ask again
Will you still love me tomorrow?

Will you still love me tomorrow?
Will you still love me tomorrow?...

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