Underwater Fine Art Portrait Photography by Craig Colvin
Esta noite dou-te a minha mão
leva-a
e deixa que os meus dedos
encontrem
sozinhos
a serenidade e o silêncio
no mapa dos teus olhos.
Ana Mateus
Um poeta é um rouxinol que se senta na escuridão, e canta para se confortar da própria solidão com seus próprios sons. Seus ouvintes são homens arrebatados pela melodia de uma musica invisível, que se sentem comovidos e em paz, ainda que não saibam como nem porquê” (Percy Bysshe Shelley)
Underwater Fine Art Portrait Photography by Craig Colvin
Esta noite dou-te a minha mão
leva-a
e deixa que os meus dedos
encontrem
sozinhos
a serenidade e o silêncio
no mapa dos teus olhos.
Ana Mateus
Arte de Albert-Joseph Pénot
Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
os restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.
Ana Cristina César
Arte de Francis-Marie Martinez Picabia
Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça
nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa
Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço.
Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar
nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar
Maria Teresa Horta
Fotografia de Maxim Borisenkov
Que mais te posso dizer?
Que te amei de norte a sul, sem fundo,
com unhas e dentes,
sem segredos.
Sem armadilhas.
Que não quis ouvir a tua voz mais uma vez,
nem olhar as nossas fotos,
nem ver-te acariciar com os teus dedos azuis
os cães que comem as sobras da tua vida.
Eu só quero escuridão e fumo.
Eu vim dizer
que te esqueci;
que vou voltar a esquecer-te a cada dia,
cada um dos dias da minha vida.
Benjamín Prado
"Pupila", desenho hiperrealista-surrealista de Jono Dry
Não são pepitas de ouro que procuro.
Ouro dentro de mim, terra singela!
Busco apenas aquela
Universal riqueza
Do homem que revolve a solidão:
O tesouro sagrado
De nenhuma certeza,
Soterrado
Por mil certezas de aluvião.
Cavo,
Lavo,
Peneiro,
Mas só quero a fortuna
De me encontrar.
Poeta antes dos versos
E sede antes da fonte.
Puro como um deserto.
Inteiramente nu e descoberto.
Miguel Torga
Corda, anel, colar,
encantada
a trança.
Hoje é fóssil, duas cegas
serpentes
crescendo.
Maurício Baptista Vieira
Arte de Steven Kenny
quando me faltas
fico assim:
deserta minúscula medrosa
com uma tristeza fornecida
por teus falsetes, labirintos e ausência
Desmilinguo e sem palavras
Desaprendo a escrita
O verso asfixiado me suicida
E cada palavra gagueja inaudível.
quando me faltas
levas quase tudo de mim
mas não arrancas o meu amor
maré alta por ti.
Lucia De Moura Chamma
Fotografia de Dalva Nascimento
Que alvor, que amar, que música,
Nos céus, em mim, no ar!
A festa da existência
Me vem ressuscitar!
Nasço a cantar com os pássaros!
Surjo a brilhar com a luz!
Envolta em rosas cândidas
Ledo retomo a cruz!
Fonte de Ser! Espírito!
Mistério criador!
Eis-me! saí dum túmulo,
Como da terra a flor.
Eis-me! eu te escuto. Emprega-me.
Senhor, que vou fazer?
«Ama» bradou a voz íntima,
«Amar cifra o dever»
Antônio Feliciano de Castilho
(1800-1875)
Há muito tempo perdi o pássaro da minha vida;
Fiz das minhas mãos gaiola para prendê-lo;
Mas parecia não mais possuir dedos pra contê-lo;
E no desespero fatal, esmaguei-o de afetos, de carinho...
Matei o pássaro dos meus sonhos!
Matei o pássaro do meu ninho!
Luiz Carlos de Oliveira Cerqueira