Estou de volta... como a primavera!

"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa..."

Manuel Antonio Pina

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Poema quase engasgado

 

Imagem via Google

Nesse tempo
Meu corpo
Caminha pro abismo
É mesmo preciso         
Que me deixes ir
Com esse ar faminto?
Ai, invades
Meu calendário
Arrancas esse dia
Sem coração
Em que no cenário
Só há migalhas
E eu preciso de pão


Cris de Souza 

 

 

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Meu coração é um lugar à meia-luz

 

Imagens Google

 meu coração é um lugar à meia-luz
eu murmurava
quando você partia e deixava
um pedaço do seu rancor
à madrugada e nos postais
revirados e entardecidos
tristes como um lenço
em sua caixa de naftalina,
uma estampa e a música
que se repete sempre que acordo, sedenta e sombria
esbarrando em minha própria casa desconhecida
acompanhando os passos no telhado, o recomeço dos verões um alarde: a moça grita da janela
será que já amanheceu? a água acabou e estamos todos suados inacabando o dia, revendo fotos, anotando
trechos do domingo
restam as flores que não comprei a luz apagada
o medo de que mais uma segunda pese como se passassem anos.

Lorena Martins

 

 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

No luxo do dia

 

Nascer do sol através da janela, photo de stock no Vecteezy

 no luxo do dia
irrompe abruptamente
o corpo de outro dia.

Não é uma vaga miragem,
nem um recordo impaciente,
nem uma premonição
que explode e se antecipa.

Outro dia ocupa este dia
porque às vezes o tempo
corrige a si mesmo.
Ou somente se substitui:
cede seu turno a outro
de seus múltiplos leitos.

O relevo do tempo
não se oculta na sombra.

Roberto Juarroz

 

 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Sou tantas, sou nenhuma

 

Arte de Irene Sheri Vishnevskaya

 Não sou Amélia
a mulher que dizem de verdade
nem Carolina vendo a vida da janela
não sou a Rita que calou um violão
ou um retrato maltratando um coração

não sou as mulheres do Roberto
nem mesmo namorada de um amigo meu
não sou Maria Carnaval que virou pó
tão pouco uma Julieta sem Romeu

quem sabe eu seja as mulheres do Lenine
não sou nenhuma e todas elas numa só?
talvez, do Chico, eu seja a tatuagem,
uma risonha e corrosiva cicatriz

quem sabe, enfim, eu seja um soneto
ou as mulheres que só dizem sim?

No fim,
de todas elas,
eu sei, serei somente aquela
que por amar-te tanto
fechou o coração
largou num canto
e mesmo em meio ao pranto perdoou.

Alice Daniel

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

A palava mágica

Bordado sobre fotografia - arte de Mana Marimoto

 Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.

Carlos Drummond de Andrade

 

 

 

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Roda da fortuna

 

"Golden Tears", de Gustav Klimt

 

foi difícil
eu poderia dizer
foi muita lágrima
mas foi mais difícil
e mais lágrima
q isso
 
mas foi
e porque foi
contar é fácil
e da lágrima quase
não lembro seu
percurso
de montanha russa
é a planície
do rosto

Juliana Bernardo

 

 

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Cadeira na varanda

 

Arte de Li Gui Jun

Pendurei meu pensamento
entre a avenca
e a samambaia.
Num galho da roseira,
espetei
meu coração.

Sossegados,
enfim,

meus olhos pastam a grama do jardim.

Marcelo Sandmann

 

 

sábado, 19 de fevereiro de 2022

Exílio

 

Fotografia de Jerzy Wardak

minha sombra é saudade sem alforria
saudade de minha sombra

vento não apaga sombra nem leva saudade
vento desfolha galhos

e larga o chão de vazios
 

Lucia De Moura Chamma 

 

 



sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Amor

 

Fotografia de José Canelas

 

Na véspera de ti
eu era pouca
e sem
sintaxe
eu era um quase
uma parte
sem outra
um hiato
de mim.

No agora de ti
aconteço
tecida em ponto
cheio
um texto
com entrelinhas
e recheio:

um precioso corpo
um bastante sim.
 
Maria Esther Maciel 

 

 

 

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Redesenho sobreposto ao azul

 

 

Study for Inner Improvement, Helena Almeida, 1977

 dói
dói tanto que já nem sei
se é minha essa agonia

imagino que tanta consumição
a natureza nos pouparia

 então
deve ser um tanto de fantasia
própria de quem tem medo de altura
que anda sempre na faixa
que olha para os dois lados da rua na hora de atravessar
que se desculpa
que pede licença pra tudo que faz na vida
que obedece à risca o respeito ao outro
(na igual proporção que deseja ser respeitado)
e que quando deseja beijar alguém
costuma se esconder nos versos de um poema…

e nessa aflição

que é do fato de existir 

eis-me aqui

numa palavra
um contumaz idiota

do tipo que não deve
e não pode
e não tem porque duvidar de suas melhores intenções
do tipo acostumado a viver
esgueirado dos lindos olhos verdes de marialva aguardados

tão culpado
tão desastrosamente condenado

mas que ainda traz em si

em meio a este infinito desconsolo 

um mundo inteiro de futuras e possíveis alegrias

Paulo Laurindo

 

 

Interlúdio com ...

Will You Still Love Me Tomorrow - Norah Jones

Will You Still Love Me Tomorrow

Norah Jones

Tonight you're mine completely
You give your love so sweetly
Tonight the light of love is in your eyes
Will you still love me tomorrow?

Is this a lasting treasure
or just a moment pleasure?
Can I believe the magic of your sight?
Will you still love me tomorrow?

Tonight with words unspoken
You said that I'm the only one
But will my heart be broken
When the night meets the morning sun?

I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now cause I won't ask again
Will you still love me tomorrow?

Will you still love me tomorrow?
Will you still love me tomorrow?...

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