Estou de volta... como a primavera!

"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa..."

Manuel Antonio Pina

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

"Enxoval"


DDiArte

Jamais conheci esse homem
que com certeza me dará
a parte de sua vida — a mais doce
um disco de Debussy
gomos de mexerica
beijos na boca seu sexo sua lívida
expressão de amor

Jamais conheci esse homem
com quem terei um filho um cachorro um aparelho de chá
a louca intimidade das dores de garganta

(E por jamais tê-lo conhecido
é que me preparo
no ritual patético das moças
separo um vidrilho
um corpo debruado em cio
a maternidade branca das louças)

Déborah de Paula Souza

Imagem Google, sem autoria mencionada


terça-feira, 11 de janeiro de 2011

"A Canção do Tédio"



Anda uma estrela pelo céu,
sozinha, arrastando um véu
de viúva.
- É a chuva.

Rola um soluço leve no ar,
bem longo no seu rolar,
bem lento.
- É o vento.

Perpassa o passo oco de algum
fantasma, quieto como um
segredo.
- É o medo.

Batem à porta. Abro. Quem é?
Uma alta sombra, de pé,
se eleva.
- É a treva.

Mas, desde então, alguém está
comigo. É inútil. Não há
remédio.
- É o tédio.

Guilherme de Almeida

Imagem Google, sem autoria mencionada



segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

"A Estrada"



Esta estrada onde moro, entre duas voltas do caminho,
Interessa mais que uma avenida urbana.
Nas cidades todas as pessoas se parecem.
Todo o mundo é igual. todo o mundo é toda a gente.
Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma.
Cada criatura é única.
Até os cães.
Estes cães da roça parecem homens de negócios:
Andam sempre preocupados.
E quanta gente vem e vai!
E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar:
Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por um bodezinho
manhoso.
Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos símbolos,
Que a vida passa! que a vida passa!
E que a mocidade vai acabar.

Manuel Bandeira

Fotografia de Roberto Hunger Junior


domingo, 9 de janeiro de 2011


dodone

Precário, provisório, perecível;
Falível, transitório, transitivo;
Efêmero, fugaz e passageiro
Impuro, imperfeito, impermanente;
Incerto, incompleto, inconstante;
Instável, variável, defectivo;
Não feito, não perfeito, não completo;
Não satisfeito nunca, não contente;
Não acabado, não definitivo
Eis-me aqui.
Vivo.

Caio Fernando Abreu

Imagem Google, sem autoria mencionada


sábado, 8 de janeiro de 2011

"Não estão"


pinnacle_500.jpg (28947 bytes)

Os pássaros não estão,
se esconderam no meu coração.

Hoje sou ninho.

Humberto Ak'abal


Imagem: "The Pinnacle", de Steven Kenny

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

"Avesso"



Eu tenho uma falha mecânica nos olhos
e um metal enferrujado no joelho.
Tenho cartas explícitas nas mangas
e uso colete à prova de balas, de hortelã.
Eu sou o destinatário das enormes e lacradas cartas que eu não remeto.

Márcia Carneiro

Imagem daqui



quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

"Lamento em Voz Baixa"



A vida que não tive
morre em mim até hoje.
Chega, límpida, pura,
sorri, pálida, foge.

A vida que não tive
salta, viva, de tudo.
Se me sorri nos olhos,
com que ilusão me iludo.

A vida que não tive
é o que há de mim em mim,
chama, orvalho, segredo
do nunca de onde vim.

Emilio Moura

Imagem daqui


terça-feira, 4 de janeiro de 2011

"Dias Melhores Verão"



Desfruta
sem pressa
Essa tua primavera
quando o verão chegar
e fores fruto maduro
vou te colher
com apuro
e te comer
de colher

Germano Konrath

Imagem Google, sem autoria mencionada


segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

"Mentiras"



Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar pousa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito meu?

Ai, se o sei, meu amor! Em bem distingo
O bom sonho da feroz realidade…
Não palpita d´amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!

Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais
O gelo do teu peito de granito…

Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!

Florbela Espanca

Imagem Google, sem autoria mencionada

domingo, 2 de janeiro de 2011

"Depois do Sol"



Fez-se noite com tal mistério,
Tão sem rumor, tão devagar,
Que o crepúsculo é como um luar
Iluminando um cemitério

Tudo imóvel . . . Serenidades
Que tristeza, nos sonhos meus!
E quanto choro e quanto adeus
Neste mar de infelicidades!

Oh! Paisagens minhas de antanho
Velhas, velhas . . . Nem vivem mais
— As nuvens passam desiguais,
Com sonolência de rebanho

Seres e coisas vão-se embora
E, na auréola triste do luar,
Anda a lua, tão devagar,
Que parece Nossa Senhora

Pelos silêncios a sonhar

Cecília Meireles


Imagem Google, sem autoria mencionada

Interlúdio com ...

Will You Still Love Me Tomorrow - Norah Jones

Will You Still Love Me Tomorrow

Norah Jones

Tonight you're mine completely
You give your love so sweetly
Tonight the light of love is in your eyes
Will you still love me tomorrow?

Is this a lasting treasure
or just a moment pleasure?
Can I believe the magic of your sight?
Will you still love me tomorrow?

Tonight with words unspoken
You said that I'm the only one
But will my heart be broken
When the night meets the morning sun?

I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now cause I won't ask again
Will you still love me tomorrow?

Will you still love me tomorrow?
Will you still love me tomorrow?...

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