Estou de volta... como a primavera!

"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa..."

Manuel Antonio Pina

terça-feira, 7 de julho de 2020

Luto tenaz




Arte de Mira Nedyalkova 

É claro que penso em ti todos os dias.
Todos. Penso com raiva,
penso com uma revolta transtornada,
e depois,
depois penso com uma tristeza que me invade inteira, 
qualquer coisa que me derruba, que me mata,
e que esquecendo-me te esquece.
Até ao dia seguinte, é claro.

Sarah Adamopoulos



 

Desnudo e frágil


 Desconheço a autoria da imagem

Desnudo e frágil te soube,
tão frágil, tão desnudo,
que se te quebrou a sombra ao respirar.
Abri a porta e as vozes da água
tomaram a forma de teu corpo.
Tão leve parecias, tão
à beira de ti,
que a noite aprendeu
a dormir sobre o rio.

Chantal Maillard



 

domingo, 5 de julho de 2020

Em que parte do corpo se situa o medo?

 
 Fotografia de Robert Maxwell - Angelina Jolie

Em que parte do corpo se situa o medo? 
Em que parte se multiplica? 
No centro do peito? 
No nascimento da garganta vai descendo até ao estômago, 
demora-se nas pernas, de preferência nos joelhos, 
e chega até aos pés, sobe de novo e castiga os braços, 
põe-lhe luvas nas mãos 
e um corpete ajustadíssimo no peito. 
Eu aconselharia não consultar nenhum espelho 
quando o medo põe a mão na garganta. 
A supressão do medo causa estragos. 

Silvina Ocampo 
Tradução Maria Lolita Sousa



quinta-feira, 2 de julho de 2020

Não digas que eu não estava à janela

 
 Fotografia de Lisette Model 

Não digas que eu não estava à janela,
que não foi para ti o que não viste.
Há tanta coisa que não sabes, não digas.
Um dia ver-me-ás à janela de ontem
com a roupa que hei-de vestir amanhã.
Até lá pensa que me sonhaste. Nem eu mesma sei
o que fiz nesse dia. Mas a janela guarda os meus dedos
como tu me guardas. O tempo é uma invenção recente.
Era uma vez essa mulher que viste. Retira o vidro,
a moldura, e não te esqueças de abrir o horizonte.

Rosa Alice Branco




VI


 Fotografia de Henri Cartier-Bresson, Tokyo, 1965

A que vens, solidão, com teu relógio
de ponteiros de visgo, de bater de feltro?
Ombro nenhum ao meu ombro encostado,
a que vens, ó camarada solidão?

Companheira, amiga, até amante,
até ausente, ó solidão, te amei,
como se ama o frio até o frio dar
a chama que tu dás, ó solidão!

A que vens, enfermeira? Não sabes que estou morto,
que se digo o meu sim ou o meu não
é só para que os outros me julguem mais um outro,
é só para que um morto não tire o sono aos outros?

A que vens, solidão? Vai antes possuir
os que amam sem esperança e sem saber esperam,
dá-lhes o teu conforto, encosta-lhes ao ombro
o teu ombro nenhum, ó solidão!

Alexandre O'Neill (1924-1986)
"Poemas com Endereço", 1962 




Sem que soubesses


Imagem da Web

Falei de ti com as palavras mais limpas,
viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.

Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimônia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.

Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.

Fernando Assis Pacheco (1937-1995)
"Cuidar dos Vivos", 1963




Onde quer que esteja


 Fotografia de Terry O'Neill - "A contemplative Audrey Hepburn 
with a dove perched on her shoulder". 1965 

Onde quer que esteja, em qualquer lugar
na Terra, escondo dos outros a certeza de
que n ã o s o u d a q u i.

Como se tivesse sido enviado para absorver
o máximo das cores, sons, cheiros, sabores,
provar de tudo o que é
reservado ao Homem, converter o vivido
num registo mágico e levá-lo para lá, de onde
parti.

Czeslaw Milosz
Trad.: Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves




Último brinde


Fotografia de Ernst Lubitsch, 1937
Marlene Dietrich no filme Angel 

Queiramos ou não
só temos três alternativas:
o ontem, o presente e o amanhã.

E nem sequer três,
pois, como diz o filósofo,
ontem é ontem,
é nosso apenas na memória:
à rosa que já se desfolhou
não se pode arrancar outra pétala.

As cartas por jogar
são apenas duas:
o presente e o dia de amanhã.

E nem sequer duas,
porque é um fato bem estabelecido
que o presente só existe
na medida em que se faz passado
e já passou…,
      como a juventude.

Em resumo,
só nos resta o amanhã:
levanto meu copo
por esse dia que nunca chega
mas que é o único
de que realmente dispomos.

Nicanor Parra 




Memória


Photo by Eugene Robert Richee, de 1928, 
Louise Brooks lounging on a large leather armchair 

Estou aqui, em casa, sozinho.
Aqui estão os móveis, o ar, os ruídos.
Tenho um sentimento tão transparente
quanto a vidraça de uma janela.
É como a janela da qual olhava a neve ao amanhecer,
há muitos anos, quando criança,
e pregava o rosto contra o vidro e compreendia toda a vida.
É um desejo calmo, como a tarde.
É estar como estão todas as coisas.
Ter meu lugar como tudo o que está na casa.
Perdurar pelo tempo que for, como as coisas.
Não ser mais nem melhor do que elas.
Só ser, no meio de minha vida,
parte do silêncio de todas as coisas.

Carlos Montemayor 




quarta-feira, 1 de julho de 2020

A morna fragilidade


 Pintura de Antony Frederick Augustus

A morna fragilidade
Da tua alma não combina
Com o meu amor selvagem
Que abre trilhas na ravina.
Amas no amor a avenida;
E eu te vejo assim impávida,
De mãos dadas com o marido,
A flanar feliz e grávida. 

 Heinrich Heine 






Interlúdio com ...

Will You Still Love Me Tomorrow - Norah Jones

Will You Still Love Me Tomorrow

Norah Jones

Tonight you're mine completely
You give your love so sweetly
Tonight the light of love is in your eyes
Will you still love me tomorrow?

Is this a lasting treasure
or just a moment pleasure?
Can I believe the magic of your sight?
Will you still love me tomorrow?

Tonight with words unspoken
You said that I'm the only one
But will my heart be broken
When the night meets the morning sun?

I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now cause I won't ask again
Will you still love me tomorrow?

Will you still love me tomorrow?
Will you still love me tomorrow?...

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