Estou de volta... como a primavera!

"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa..."

Manuel Antonio Pina

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Há meses

 

Imagem via Pinterest


Há meses que vivo rodeada
por uma substância negra e pegajosa
que invadiu a minha casa. As paredes,
o chão, as janelas e os móveis,
a comida, os livros e a roupa,
o teclado do computador, as plantas,
o telefone… Está tudo impregnado
com este pez escuro, o mesmo que respiro
e que me mata pouco a pouco.
Dizem que os venturosos e os néscios
chamam melancolia a esta porcaria
que apodrece o coração e asfixia a alma.

Amalia Bautista

 

 

 

Escrevias

Fotografia de Carlos Fernandes

Escrevias pela noite fora.
Olhava-te, olhava
o que ia ficando nas pausas entre cada
sorriso.
Por ti mudei a razão das coisas,
faz de conta que não sei as coisas que não queres
que saiba, acabei por te pensar com crianças
à volta. Agora há prédios onde havia
laranjeiras e romãs no chão e as palavras
nem o sabem dizer, apenas apontam a rua
que foi comum, o quarto estreito. Um livro
é suficiente neste passeio. Quando não escreves
estás a ler e ao lado das árvores o silêncio
é maior.. Queria
prender-te, tornar a perder-te, achar-te
assim por acaso no meu dia livre a meio
da semana...
Pudesse eu propor-te
vida menos igual, outras iguais obrigações.
Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal.


Helder Moura Pereira
in "De Novo as Sombras e as Calmas" (c/ supressões)








sábado, 31 de dezembro de 2022

 O ano passado

 


  O ano passado não passou,
   continua incessantemente.
   Em vão marco novos encontros.
Todos são encontros passados.
As ruas, sempre do ano passado,
e as pessoas, também as mesmas,
com iguais gestos e falas.

O céu tem exatamente
sabidos tons de amanhecer,
de sol pleno, de descambar
como no repetidíssimo ano passado.
Embora sepultos, os mortos do ano passado
sepultam-se todos os dias.
Escuto os medos, conto as libélulas,
mastigo o pão do ano passado.
E será sempre assim daqui por diante.
Não consigo evacuar
o ano passado.

Carlos Drummond de Andrade


quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Eu te quero bem

 

Fotografia de Ines Rehberger

 eu te quero bem,
só não sou besta de sair por aí perguntando de você.
te quero bem e sempre vou querer,
o silêncio foi a forma que encontrei pra dizer.
te quero bem, mas torço pelo desencontro,
que as coincidências fiquem apenas para o início do amor.
peço que a gente não vá no mesmo café,
no mesmo dia, no mesmo fim de tarde.
me quero bem.

Bruno Fontes

 

 

Queda

 

Marvelous Female Portraits by Fernando Chassot
 

Je suis tombée
amoreuse, foi o seu
primeiro encontro
com o chão.  

Dessa vez partiu
em cacos o coração.
Os ossos só mais tarde,
um por um,
contra a terra.

C'est fou la vie,
essa derrocada
a que apenas resistem
memória e pássaro,
em voo picado.

Renata Correia Botelho


quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Virtuose

 

 Nathalia Arja in Firebird. Choreography by George Balanchine and Jerome Robbins © The George Balanchine Trust. Photo © Karolina Kuras

 

 Tenho dedos tortos para versos tristes
Tenho versos tristes para um bolero
Mas talvez um tango me caia melhor

Tenho pés cansados para valsas mortas
Nunca me arrisquei a inventar um passo
Digo, pesaroso, à mão que me convida:
Sou um passageiro deste verbo neutro

Como não sei dançar
Vou pedir um Porto
Vou me embriagar
Depois cair morto

Amanhã eu ressuscito

Com dedos tortos pra tocar um fado
Com pernas tortas pra dançar um tango
E versos curvos para um bolero

Com pé fagueiro para viva valsa
Com velha nova para história boa
Punho fechado de direito jab.

Terei me erguido antes da contagem.

Leandro Costa 



Dantes, pelos caminhos

 

Fotografia via Pixabay.com

 

 Quando a noite renova a planura
das sombras sobre a terra, os cães
ladram à palidez da lua, fustigados
pelo ranger das portas.
Dantes, pelos caminhos,
havia pessoas apressadas,
de regresso às casas, agora desertas
e as mulheres chamavam os filhos
com a mesma voz com que rogavam
pragas à miséria.

Graça Pires

 

 

A origem do mundo

 

 

Fotografia via Colorsforyou


De manhã, apanho as ervas do quintal. A terra,
ainda fresca, sai com as raízes; e mistura-se com
a névoa da madrugada. O mundo, então,
fica ao contrário: o céu, que não vejo, está
por baixo da terra; e as raízes sobem
numa direção invisível. De dentro
de casa, porém, um cheiro a café chama
por mim: como se alguém me dissesse
que é preciso acordar, uma segunda vez,
para que as raízes cresçam por dentro da
terra e a névoa, dissipando-se, deixe ver o azul.

Nuno Júdice

in Meditação sobre Ruínas

 

 

Talvez um poema

 

Via "La Puerta Originals"

 Talvez um poema seja isto
uma porta escancarada para tudo
onde o nada nos aguarda sem ser visto

Talvez como uma pétala caída
de uma flor regada à ausência

Talvez como um amor sem violência
e a morte em ser morte desejada

Talvez seja o que não é palavra
mas é palavra na espera de ser vida

Talvez a desvelada anarquia
de teus olhos segredando rupturas
da linguagem no olhar da fechadura

Raul Macedo

 

 

 

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

É preciso

 

Fotografia Revista Crescer - Globo.com

 É preciso ser duro
como a pedra
como a pedra que parte
como a parte da pedra
que penetra a parede
e a parte
como a rede que não vaza
como o vaso que não quebra
como a pedra que fende
o paredão da casa
E é preciso ter ciso
e simulacro
É preciso todos os dias
vencer os deuses
pigmeus/golias
É preciso ter cara
e ter coragem
É cada vez mais raro
quem assim reage

É preciso ser duro
como o murro
como o muro
e é preciso ser doce
como se anteparo
de vidro
o muro fosse.
É cada vez mais raro
ser duro e doce
cada vez mais torpe
ser apenas duro
cada vez mais nulo
ser apenas doce
cada vez mais raro
cada vez mais duro
ser o muro e a nuvem
como se um só fossem

Ivo Barroso 

 

 

Interlúdio com ...

Will You Still Love Me Tomorrow - Norah Jones

Will You Still Love Me Tomorrow

Norah Jones

Tonight you're mine completely
You give your love so sweetly
Tonight the light of love is in your eyes
Will you still love me tomorrow?

Is this a lasting treasure
or just a moment pleasure?
Can I believe the magic of your sight?
Will you still love me tomorrow?

Tonight with words unspoken
You said that I'm the only one
But will my heart be broken
When the night meets the morning sun?

I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now cause I won't ask again
Will you still love me tomorrow?

Will you still love me tomorrow?
Will you still love me tomorrow?...

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