Estou de volta... como a primavera!

"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa..."

Manuel Antonio Pina

sábado, 23 de maio de 2020

Labirinto ou não Foi Nada


 Imagem da Web

Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua ...
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua...
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

David Mourão-Ferreira
in "À Guitarra e à Viola"




Isto é o meu corpo

 
© William-Adolphe Bourguereau 

O corpo tem degraus, todos eles inclinados
tem milhares de lembranças do que lhe aconteceu
filiação, geometria
umdesabamentoquecomeça do avesso
e formas que ninguém ouve

O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
deondevemestebraçoquetoca no outro,
deondevêmestaspernasentrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?

não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar.

José Tolentino Mendonça
in Estação Central, 2012





Ruínas


  Arte fotográfica de Emma McEvoy 

Por onde quer que tenha começado,
pelo corpo ou pelo sentido,
ficou tudo por fazer, o feito e o não feito,
como num sono agitado interrompido.
O teu nome tinha alturas inacessíveis
e lugares mal iluminados onde
se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam,
e talvez devesse ter começado por aí.
Agora é tarde, do que podia
ter sido restam ruínas;
sobre elas construirei a minha Igreja
como quem, ao fim do dia, volta a uma casa.

 Manuel António Pina
in Como se desenha uma casa, 2011



 

Não estás aqui


Fotografia de Dalva Nascimento

Não estás aqui.
Nem na minha vida, nem no meu sonho.
Não estás nem no que eu amo nem no que eu quero.
E nem no que preciso.
E nem no que odeio.
Não estás, sequer, entre as coisas que me são indiferentes.
Simplesmente não estás.
Nem és.
Nem poderás ser alguma vez.
Sendo assim, és apenas o que não és.
Logo, não existes, não contas, não respiras, não vives.
E não serás recordação.
Não haverá memória de ti, apenas memória da tua não presença, de uma luz que nunca se acendeu, de um rio que não tem água, de um recado que não tem palavras, de um filme que não tem imagens.
E ainda assim, falo de ti.
Ainda assim faço de conta que existes, fantasma do meu texto, espírito do nada que me escreves quando escrevo.
Inexistência do que é.
Certeza de tudo o que é incerto.
Sentimento do que não pode ser sentido.

Joaquim Pessoa 
in “Ano Comum”



 

Sempre me recusei a arder como os outros


 Desconheço a autoria da imagem
 
Sempre me recusei a arder
como os outros

Ardam-se mais à esquerda ou mais
à direita
mais a vento de sul ou de norte,
mas labaredem-se,
sejam fogos que ardem!

Porque pior que a desdita loucura
é toda a gente andar em brasa
mas ninguém chegar a incêndio

E no fim são todos cinzas

Claudia R. Sampaio




quinta-feira, 21 de maio de 2020

Perigo de explosão


 Arte de Robin Isely

É melhor
fechares
os olhos,meu
amor,
antes que o
mundo
inteiro seja um
incêndio.

Os ventos todos
fechados dentro
da minha mão.
quantos ciclones
queres ?

Procurava
nos outros a
ternura, mas
só encontrava
poços cheios
de ódio e
nitroglicerina

Aquele
poema,
ao contrário
dos outros,
tinha pólvora.
só lhe faltava
o rastilho.

Éramos
rebeldes por
sistema,a sonhar uma
revolução por dia. à
tardinha, na esplanada,
bebiamos um
cocktail molotov.

O terrorista
apaixonado
carregava, às
escondidas,
uma bomba-
relógio. era
no peito. era o
coração.

A Naifa



 

O apanhador de desperdícios


 
Imagem via Pinterest
 
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel de Barros




Procura-me por todos os lados


  Photographer: David Talley Photography
Model: Diggie Vitt Photography

procura-me por todos os lados,
procura-me às escuras por todos os lados, estarei
algures, fremindo, criando bichos entre
os braços e as pernas, aguardando que
me salves. só assim te amarei, se souberes
descortinar o caminho para o lugar onde
me escondo, com medo, com fantasmas,
feito para ser amado apenas por quem,
avistando-me no fundo do poço, me
puder querer sem garantia de outra condição.

Valter Hugo Mãe





Talvez num dia


Imagem da Web
 
talvez num dia
em que de mim já nada exista
te lembres de dois braços
que te abraçavam convulsivamente
nessa altura
deixa que os lábios te sangrem
deixa que o sangue te corra pelo peito

e as mãos
essas
abandona-as...

Mário-Henrique Leiria




Batismo


Imagem da Web
Para atrasar a morte vamos abrir a noite
com música de jazz
Percorrê-la depois
num barco de borracha
Celebrar o segredo
Enforcar a memória
Descobrir de repente
uma ilha que nasce dentro do teu vestido
Chamar-lhe Madrugada
Adormecer contigo

David Mourão-Ferreira





Interlúdio com ...

Will You Still Love Me Tomorrow - Norah Jones

Will You Still Love Me Tomorrow

Norah Jones

Tonight you're mine completely
You give your love so sweetly
Tonight the light of love is in your eyes
Will you still love me tomorrow?

Is this a lasting treasure
or just a moment pleasure?
Can I believe the magic of your sight?
Will you still love me tomorrow?

Tonight with words unspoken
You said that I'm the only one
But will my heart be broken
When the night meets the morning sun?

I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now cause I won't ask again
Will you still love me tomorrow?

Will you still love me tomorrow?
Will you still love me tomorrow?...

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