Estou de volta... como a primavera!

"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa..."

Manuel Antonio Pina

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Mesmice


"Patience", by Jacob-Joseph

— estou oca —
melhor louca
que assim pouca

Celina Portocarrero
 
 
 

Metamorfoses


Arte de Rala Choi

permanecer o mesmo
ao revolver-se outro
dentro de todos
escombro de encontros
atônito
simulacro de assombros
monstro
epígono de anônimos
...
do desterro do tempo
o enredo do corpo,
lento volteio até o outro,
alheio e incôngruo
ignoto de mim
assomo meu todo

Danilo Bueno
in Corpo Sucessivo (2008)
 
 


Outono

 

Natureza morta com cesta de frutas (1888-1890), Paul Cézanne

Não sabemos que fruto se pressente na boca,
confirmando um tempo de colheita.
Urgente se torna refazer o frágil
caminho das manhãs: um trajeto de água
nas pupilas dos pássaros, conquistando planícies,
fontes, lábios. Umas vezes vento, outras vezes barco,
mas sempre coniventes com a ilusão que se maneja
como um desvio para escapar à morte.
Setembro escreve-se a cor de mel,
quando a luz quase emerge da terra
e os dias, mais curtos, garantem que o sol
se reconcilie com a noite.

Graça Pires
in Ortografia do olhar

 


Há dias

Fotografia de Gregorius Suhartoyo

Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos

as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-se comigo
quero eu dizer :
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.


Eugénio de Andrade
 
 

Os dias iguais

Arte de Rafal Olbinski

 os dias iguais são ensaios
de eternidades

todos os dias são um só
dia

as dores: memórias
equecidas

as alegrias

o canto tardio
do pássaro ego

os lírios

tudo
como num grande e fugaz

delírio

Nydia Bonetti

 

 

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Naufrágio inconcluso

 

"Dama com Leque", de Pablo Picasso

Esse temporal a destempo, essas grades nas meninas dos meus
olhos, essa pequena história de amor que se fecha como um
leque que aberto mostrava a bela alucinada: a mais
nua do bosque no silêncio musical dos abraços.

Alejandra Pizarnik 

 


Filhas do vento

 

Fotografia de Francesca Woodman
 
 
 Vieram.
Invadem o sangue.
Cheiram a plumas,
a carência,
a pranto.
Mas você alimenta o medo
e a solidão
como a dois animais pequenos
perdidos no deserto.

Vieram
incendiar a idade do sonho.
Um adeus é sua vida.
Mas você se abraça
como a serpente louca do movimento
que só se encontra a si mesma
porque não há ninguém.

Você chora debaixo do seu pranto,
você abre o cofre dos seus desejos,
e é mais rica do que a noite.

Mas há tanta solidão
que as palavras se suicidam.

Alejandra Pizarnik
 
 
 

Em desconstrução

 

Fotografia de Antonio Palmerini

principiou em mim
e terminou em algum lugar
em construção

quando se desliga a música
antes dela acabar
o ar fica freado
no espaço

vou para rua e não escuto
o murmurar do mundo

há tanto para se fazer
e quando algo começa
em algum ponto
e resolve continuar em mim
sinto que permanece para sempre

nunca há fim nos princípios
tudo é eterno e inacabado

Lara Amaral

 



À beira d'água moro

Foto gratuita de Pixabay

À beira d'água moro,
à beira d'água,
da água que choro.

Em verdes mares olho,
em verdes mares,
flor que desfolho.

Tudo o que sonho posso,
tudo o que sonho.
E me alvoroço.

Que a flor nas águas solto,
e em flor me perco
mas em saudade volto.

Cecília Meireles
in Metal Rosicler´

 

 


segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Num abraço

Imagem da Web

Ponho o meu dedo sobre os teus lábios
para que não fales.
Hoje doem-me as palavras.
E só o silêncio se ajusta
à tristeza de ter as asas molhadas
e ser ave ferida agarrada ao chão.

Ponho os teus braços à volta do meu corpo
para que me abraces sem nada dizer,
com todas as tristezas presas na garganta
onde tantos gritos se calam.

Encosto o meu corpo ao teu,
sinto os mudos abismos da tua pele
e tomo as tuas mãos entre as minhas
para que dances comigo... neste silêncio.

Ana Mateus


 

Interlúdio com ...

Will You Still Love Me Tomorrow - Norah Jones

Will You Still Love Me Tomorrow

Norah Jones

Tonight you're mine completely
You give your love so sweetly
Tonight the light of love is in your eyes
Will you still love me tomorrow?

Is this a lasting treasure
or just a moment pleasure?
Can I believe the magic of your sight?
Will you still love me tomorrow?

Tonight with words unspoken
You said that I'm the only one
But will my heart be broken
When the night meets the morning sun?

I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now cause I won't ask again
Will you still love me tomorrow?

Will you still love me tomorrow?
Will you still love me tomorrow?...

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