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Estou de volta... como a primavera!

"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa..."

Manuel Antonio Pina

domingo, 1 de novembro de 2026

Este lilás

 


Foto de Dalva Nascimento


Este lilás desfolha-se. 
De si mesmo cai 
e esconde a sua antiga sombra. 
Hei-de morrer de coisas assim.
 
Alejandra Pizarnik



Entre as Duas e as Três


Imagem da Web


Queria falar do que não tem concerto:
as letras desenhadas e compostas
com que confundo o espaço do papel,
a angústia compassada no contar
e a súbita alegria de ser eu
penosamente, às duas da manhã

Queria escrever do que não tem lugar:
a branca, doce e sonolenta estrada
onde espaçadas as palavras crescem,
suavizadas pelo lento sono
que devagar percorre as coisas todas
penosamente, às duas da manhã

Queria dizer do que não tem conserto:
ou seja, eu; ou seja, o papel branco
sombrio agora por já ser demais,
as letras excedentes e sonoras
desmembrando o silêncio e a noite toda
penosamente, às duas da manhã

Só então falarei do que ficou:
compassada alegria desenhada
na angústia de dizer sem me contar,
o papel confundido de impotente
e todavia prontas as palavras.
Quase às três da manhã. Penosamente.

Ana Luísa Amaral,
in Coisas de Partir


A casa é uma memória



Fotografia de Dalva Nascimento

a casa é uma memória onde
lentamente desenhar percursos
(mapas para inventar o tempo)

para a habitar reparto como sombras

e enquanto as estações se confundem
acordo para uma insónia agitada
onde uma casa existe
mas não tem paredes

Maria Sousa



sexta-feira, 17 de abril de 2026

Adolescência

 

Arte de Katerina Lomonosov
 

Era uma alameda branca,
atapetada de papel de seda.
Não tinha sombras,
cantos escuros,
não tinha muros.
Permanecia.
Até que um dia,
um anjo descuidado
deixou pingar-lhe
uma gota de carmim.
Calou-se o branco
que fora imaculado,
numa aquiescência casta e comovida.
Recolheu-se manso.

... e foi assim que começou a vida.

 Flora Figueiredo
Em Calçada de Verão

 

 



quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Não há deuses

  

Arte de Toleitwolf

Não há deuses
no quarto vazio apenas ausências
flutuantes
esperanças esmagadas
pelas pedras rochosas
pela água salgada que entra
através dos portais carcomidos
Não há deuses
na casa vazia
e tudo é melancolia.
.

Mariza Alencastro

 

 

 


Eu usava uma armadura

  

Arte de Maria Fett

Eu usava uma armadura
que me traiu duas vezes:
foi insuficiente para defender o golpe
foi eficaz a esconder a ferida.

André Tecedeiro

 

 

 


Quando cheguei a casa

  

Imagem via Google

Quando cheguei a casa as minhas mãos traziam ainda o teu cheiro.
A minha boca abandonada na segunda metade de um beijo
mastigava palavras que te amariam se as deixasses pousar-te na pele.
Não quis adormecer para não ter de acordar sem ti mas acordei.
E a manhã é um silêncio
E o teu toque uma mentira.

 Pedro Jordão

 

 

 

Melopéia do tempo

 

Arte de Destiny Blue

Se tiveres um bocado de tempo
Um bocado precioso do teu tempo
Um momento breve de minutos
Ou doces momentos de segundos
Atravessa a ousadia e vem dormir
Neste leito onde a chama arde
Sem que se faça em cinzas
Aqui é amor apenas e graça
A música que vem de ti
Doce Chopin do meu piano
Barco pronto a partir
Pelo teu rio acima
Tejo que quero descobrir.


Isabel Fidalgo

 

 melopeia
/éi/
substantivo feminino

    1.
    música
    a parte musical, melódica de um recitativo ('gênero de canto declamatório').
        música
        melodia que acompanha qualquer recitação.
    2.
    toada, cantiga de melodia simples e monótona, ger. melancólica; cantilena.

    3.
    figurado
    toada doce, suave, eufônica.
    "as m. da paixão"

    4.
    declamação harmoniosa, delicada, aprazível.

    5.
    história da música
    na Grécia antiga, o tratado de composição, o conjunto dos princípios, das regras que regem a composição de melodias.

Origem
⊙ ETIM(1813) grego melopoiía,as 'melodia, música; teoria musical'



terça-feira, 11 de novembro de 2025

Catártico

 

Arte de  Nicholas Fols
 

Acaso eu teria farsas 
Acaso eu teria farpas
Acaso eu teria fonemas

Acaso eu teria prantos
Acaso eu teria pânico
Acaso eu teria poemas

Se nas minhas veias 
Não corressem dilemas?

Cris de Souza


 

 

Estranhos

  

Fotografia de Evgeniy Beloshytskiy (@eugeniqa)

um olho no caos
outro no cais

um olho na luta
o outro na paz

um olho perdido
outro encontrado

um olho no circo
o outro no prato

um olho invertido
e outro pintado

um olho no peixe
outro no gato

um olho pagão
outro fechado

um olho no pão
outro cansado

um olho futuro
o outro passado

um olho amigo
o outro nem tanto

um olho de vidro
outro de pano

olho
muitos olhos
na plataforma
a esperar

um olho caça um poema
o outro, um lugar pra sentar.

Ana Mendes

 

 

 
 

Interlúdio com ...

Will You Still Love Me Tomorrow - Norah Jones

Will You Still Love Me Tomorrow

Norah Jones

Tonight you're mine completely
You give your love so sweetly
Tonight the light of love is in your eyes
Will you still love me tomorrow?

Is this a lasting treasure
or just a moment pleasure?
Can I believe the magic of your sight?
Will you still love me tomorrow?

Tonight with words unspoken
You said that I'm the only one
But will my heart be broken
When the night meets the morning sun?

I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now cause I won't ask again
Will you still love me tomorrow?

Will you still love me tomorrow?
Will you still love me tomorrow?...

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