Estou de volta... como a primavera!

"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa..."

Manuel Antonio Pina

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Tínhamos os olhos muito abertos

 

Imagem via Piterest

 tínhamos os olhos muito abertos.
queimávamos madrugadas de fio a pavio
e as aves desmanteladas que te dava para consertares
conheciam sempre finais felizes.

foram noites gigantes
a olhar pelo buraco da agulha
e a imaginar que do outro lado chegavam as mãos
e as bocas e os peitos.

ocupámos a casa inteira
e suturámos lentamente o coração.

agora estou dentro do sono.
um barco encalhado assinala esta tragédia
e já não sei como convocar os ventos e as marés.
as noites passam lentas e perseguem-me
como animais ainda por nomear.
 

Leonor Castro Nunes



 

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

É tempo de acender o fogo

 

"The Mermaids of Balmoral" , Photography by Chris Meredith
 

 No encalço de pequenas alegrias,
faço do corpo um barco.
Amarro-o nas margens do silêncio
e divago, com urgência,
por dentro de um impulso incontrolado.

Tomo em meus olhos a transparência dos teus.
Quero sentir a tua noite a rondar-me o sangue,
quando dizemos: é tempo de acender o fogo.
Quero conhecer a excessiva inclinação da luz,
quando, desarmado, o coração, aguarda
que aconteça aquele fascínio de garotos,
à espera da festa prometida.

Graça Pires

 

 

 

domingo, 23 de janeiro de 2022

Saber esperar alguém

 

"Woman listening to the radio", by Laurie Simons
 
 Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objetos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objeto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti
até que a dor alegre recomece.

Maria Gabriela Llansol
 
 

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Mistério

 

Fotografia conceptual de Misha Gordim


Há vozes dentro da noite que clamam por mim,
Há vozes nas fontes que gritam meu nome.
Minha alma distende seus ouvidos
E minha memória desce aos abismos escuros
Procurando quem chama.
Há vozes que correm nos ventos clamando por mim.
Há vozes debaixo das pedras que gemem meu nome
E eu olho para as árvores tranquilas
E para as montanhas impassíveis
Procurando quem chama.
Há vozes na boca das rosas cantando meu nome
E as ondas batem nas praias
Deixando exaustas um grito por mim
E meus olhos caem na lembrança do paraíso
Para saber quem chama.
Há vozes nos corpos sem vida,
Há vozes no meu caminhar,
Há vozes no sono de meus filhos
E meu pensamento como um relâmpago risca
O limite da minha existência
Na ânsia de saber quem grita.

Adalgisa Nery
no livro "Cantos da Angústia"


Homenagem que se faz à poetisa, romancista, contista, jornalista e política carioca, 

nascida em 29 de outubro de 1905.

Deus na antecâmarra

 

 

Fotografia conceptual de Misha Gordim

 

Mereço (merecemos, meretrizes)
perdão (perdoai-nos, patres conscripti)
socorro (correi, valei-nos, santos perdidos)
Eu quero me livrar desta poesia infecta
beijar mãos sem elos sem tinturas
consciências soltas pelos ventos
desatando o culto das antecedências
sem medo de dedos de dados de dúvidas
em prontidão sanguinária
(sangue e amor se aconchegando
hora atrás de hora)
Eu quero pensar ao apalpar
eu quero dizer ao conviver
eu quero partir ao repartir
filho
pai
e
fogo
DE-LI-BE-RA-DA-MEN-TE
abertos ao tudo inteiro
maiores que o todo nosso
em nós (com a gente) se dando
HOMEM: ACORDA!

Ana Cristina Cesar


Uma homenagem a poetisa Ana Cristina Cesar, que falecia em 29.10.1983




quinta-feira, 23 de setembro de 2021

No túnel escuro

 
Vista da cidade pela janela do trem, 1980, @metrosp_oficial

Fui jovem aqui. Andava
de metrô com o meu livrinho
como se procurasse defender-me

deste mesmo mundo:

não estás sozinha,
dizia o poema,
no túnel escuro.

Louise Glück

Abandono

  


imagem via Tumblr

E ao fim do meu dia
a matéria de que se faz a minha vida
de novo abandonada
de novo de novo abandonada
pergunta-me silenciosa
se ao apagar da luz
a vida terá princípio.

Pedro Tamen

Luz

 


Fotografia de Luis Argerich via Vagabondish

Seja de dia ou de noite
trago sempre dentro de mim
uma luz.
No meio do ruído e da desordem
trago silêncio.
Trago
sempre luz e silêncio.

Anna Swir

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Se vindes procurar-me aqui

 

 
Desconheço a autoria da imagem

Se vindes procurar-me aqui,
vinde, portanto, lentamente e com doçura
e com receio de riscar
a porcelana da minha solidão

António Barahona


 
 



Em segredo

 

 Imagem Google 

Mas temos o vinho
e temos as cartas:
essas que uma vez marcámos
em segredo
para que ambos perdêssemos
quando jogássemos
um
contra o
outro.
 
José Carlos Barros
 

 
 

 


 

Interlúdio com ...

Will You Still Love Me Tomorrow - Norah Jones

Will You Still Love Me Tomorrow

Norah Jones

Tonight you're mine completely
You give your love so sweetly
Tonight the light of love is in your eyes
Will you still love me tomorrow?

Is this a lasting treasure
or just a moment pleasure?
Can I believe the magic of your sight?
Will you still love me tomorrow?

Tonight with words unspoken
You said that I'm the only one
But will my heart be broken
When the night meets the morning sun?

I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now cause I won't ask again
Will you still love me tomorrow?

Will you still love me tomorrow?
Will you still love me tomorrow?...

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