Estou de volta... como a primavera!

"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa..."

Manuel Antonio Pina

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

A identidade, como a pele


Arte de Tatiana Parcero

A identidade, como a pele,
renova-se, perde-se de sete
em sete anos, muda no mesmo
corpo, torna diferente
a permanência humana.

A identidade é a soma
das intenções, uma foto
instantânea para um propósito
imediato que não dura.

A identidade é um equívoco
para camuflar o coração.

Pedro Mexia
 
 
 

Não escolho nada

Arte de Lilla Cabot Perry

Não escolho nada deixo-me vestir
Pela música discreta que tacteia
Meu corpo em sua breve caminhada.

Não desejo nada consinto apenas
Que a dor me visite e a jovem ceifeira,
Mãe das coisas todas, me seduza.

Não escolho nada nem sequer o vaso
Onde me derramo devagar
Como se fosse água, ou leve lume.

Casimiro de Brito
in 'Na Via Do Mestre'
 
 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Balada de sempre

 

Imagem via imgfave.com

Espero a tua vinda
a tua vinda,
em dia de lua cheia.
Debruço-me sobre a noite
a ver a lua a crescer, a crescer.

Espero o momento da chegada
com os cansaços e os ardores de todas as chegadas.
Rasgarás nuvens de ruas densas,
Alagarás vielas de bêbados transformadores.
Saltarás ribeiros, mares, relevos.
- A tua alma não morre
aos medos e às sombras!

Mas...,
Enquanto deixo a janela aberta
para entrares,
o mar,
aí além,
sempre duvidoso,
desenha interrogações na areia molhada.

Fernando Namora

 

 


A bicicleta

 Arte by Edgard Castaños

O meu marido saiu de casa no dia
25 de Janeiro. Levava uma bicicleta
a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro,
vestia calças azuis de zuarte, camisa verde,
blusão cinzento, tipo militar, e calçava
botas de borracha e tinha chapéu cinzento
e levava na bicicleta um saco com uma manta
e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo
e uma panela de esmalte azul.
Como não tive mais notícias, espero o pior.
 

Alexandre O'Neill
in As horas já de números vestidas
 
 


Eu no seu olho

 

Fotografia de Richard Avedon

Eu
no seu olho
nítida

[e antes
do instante
invertida]

eu tímida
investida
de nova
espera

[de nove
horas
despida]

eu úmida
no seu chove
não molha
diluída

[na língua ambígua
do seu camaleolho
eu

traduseduzida]

Valeria Tarelho

 

 

 

sábado, 23 de janeiro de 2021

Escuta o rumor do meu coração

 

Arte de Christina Troufa

Escuta
o rumor do meu coração
afogando-se em
pirotecnia valvular
nunca antes teve tanta urgência,
nunca antes trabalhou tão
afoito

Escuta
o que não digo,
milhões de sílabas de um idioma
não transcrito

Escuta
a cadeia sonora
por detrás dos meus suspiros,
uma sonoplastia a decifrar.

Maitê Rosa Alegretti
 
 
 

Um desafio exibido nas ancas

 

Arte de Jock Burrowes 
 
 Dentro de si mesma, a noite
não tem contornos:
Serve-se das sombras
para repatriar exilados afetos.
Abro as janelas, de par em par
e caminho sobre as horas,
com jogos ilícitos presos à cintura.
Um desafio exibido nas ancas.
O vértice das pernas, a sobrançar um rio,
subitamente cheio.

Graça Pires





Aprendamos, Amor

 

Imagem via Wallpapersfull.com

Aprendamos, amor, com estes montes
Que, tão longe do mar, sabem o jeito

De banhar no azul dos horizontes.
Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.

José Saramago 

 

 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Se o que penso

Fotografia de © Michaela Knížová

Se o que penso
e o que sinto
fossem o que penso
e o que sinto

não teria assim tão maltratado
o coração.

Ah como o homem
é cheio de inquietação
e tolice.

Antonio Brasileiro
in Pequenos Assombros




De forma ambígua

Fotografia de Chiara Fersini

De forma ambígua, avoluma-se no chão
a silhueta de uma sedução nunca relatada.
Fixo no espelho uma imagem múltipla de mim.
Comparo-me com quem sou.
Ensaio afetações, até à primordial aparência:
audaciosa, desnuda, porta vidrada
a todas as intimidades.
Através dos meus poros deslizam enigmas,
cujo fascínio não tem retorno.
Moro num noturno simbolismo,
porque infrinjo todas as utopias
que me apontam signos luminosos.
É de noite que me sinto orfã de todas as mães.

Graça Pires
De Conjugar afetos, 1997


 

Interlúdio com ...

Will You Still Love Me Tomorrow - Norah Jones

Will You Still Love Me Tomorrow

Norah Jones

Tonight you're mine completely
You give your love so sweetly
Tonight the light of love is in your eyes
Will you still love me tomorrow?

Is this a lasting treasure
or just a moment pleasure?
Can I believe the magic of your sight?
Will you still love me tomorrow?

Tonight with words unspoken
You said that I'm the only one
But will my heart be broken
When the night meets the morning sun?

I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now cause I won't ask again
Will you still love me tomorrow?

Will you still love me tomorrow?
Will you still love me tomorrow?...

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